From: "Carlos Alberto Teixeira" <cat@iis.com.br>
To: <My-People@Golden.List.Org>
Sent: Sunday, September 09, 2001 12:53 AM
Subject: << Chapeuzinho Vermelho >>


Estas  são as interpretações feitas por Millôr Fernandes da estória  de
"Chapeuzinho  Vermelho", emulando os estilos de Guimarães  Rosa,  David
Nasser & Jean Manzon, Austregésilo de Athayde e Raquel de Queiroz.


-----------------------------------------------------------------------

                O QUE TIVESSE DE SER, SOMENTE SENDO
         Estilo antifigúrico (à maneira de Guimarães Rosa)
                            Millôr 1998

                                ***

No contravisto do caminho, Capuchinho Purpúreo ia à frente, a com légua
de andada, no desmedo da floresta. O bornoz estornava demasias de gula,
carnalidades, guleimas, bebeiras e pitanças pra boca de pessoa,  a  vó,
sem  nem aviso antes. Sente o muito bicho retardar, ponderado. Hora  de
poder  água beber, esses escondidos. Por ali sucuri geme. O céu  embola
no  brilho de estrelas, cabeça de Chapeuzinho vai que esbarra nelas.  É
um  escurão que peia e pega. Dali vindo, um senhor Lobo, na  frente  da
boca todos os demais dentes de caso quisesse.

-  Se  é, sê, linda menina, que parece dispor de muita virtude  na
   pressa desse aonde.

-  Nada,  nada  vezes  - disse, e pensou Capuchinho,  deve  ser  o
   Incapacitado, no irreconhecível do demônio.

E  nem indagou nonada, mas Lobo no após, santificado de maldade, ensoou
que  só  estava  na  busca do significante de sua indagação.  Consoante
falou  soez,  amiudado, com propósito de voz. Capuchinho  arrenegou  e,
suspendida  no  fôlego, atravessou o Pardo e o Acari,  pela  Vereda  do
Alegre,  no  célere  do  pressentido.  O  lobo,  coração  quejando  nas
esquerdas foi pelo Piratinga, que é fundo, mas subindo beira desse,  se
passava.  Chegou em inhantes, não muitos, com tempo de assinalar  à  vó
outros caminhos, só você entende, com padre Quelemém, e se botou, assim
deitado  coberto, na espera que o que viesse vinha - o  que  não  é  de
Deus, é estado do Demônio. Capuchinho foi chegando, mostrou papanças  e
pitanças, salivas de goelas, bocas e queixadas, e daí deu-se ver na  vó
sinais discordes.

-  A  ser,  avó querida, no desarranjo da forma, sem falar feieza,
   suas orelhas desmandam.

O velho lobo, no entendido da hora disse que na velhice os sons se vão-
se  e  a  orelha sai em busca, o nariz dá no mesmo de comprido tentando
tragar cheiro esfugido. E que os dentes vão crescendo pro Vups, que ele
deu  logo na garganta da carótida salutar da carne doce doçura. E pois,
pelos  entretantos,  dito  Zé Bebelo, provedor  da  estúrdia  forca  de
enforcar no morrote de São Simão do Bá, se apareceu, ele mesmo  em  sua
pessoa,  de  laço  e  baraço devido restante enforcamento.  Capuchinho,
agora  pois, no choro. Nem todo mundo carece, mas tem os que. No  mais,
nada.  O  que  termina  acaba.  Viver é muito  perigoso,  compadre  meu
Quelemém.

-----------------------------------------------------------------------
                             
                 CHAPEUZINHO SERÁ MESMO VERMELHO?
   Estilo de reportagem 1950 (à maneira de David Nasser & Jean Manzon)
                            Millôr 1949

                                ***

Enviados  especialmente à Floresta do Kalaiban os  repórteres  viajaram
três  mil  milhas  num magnífico quadriplano da Branif,  tendo  corrido
graves  perigos de emboscadas dos selvagens e escapado várias vezes  de
ser  mordidos  por  cobras de oitenta e cinco metros de  comprido,  mas
trouxeram  a  verdadeira história de Chapeuzinho  Vermelho,  aqui  pela
primeira vez publicada no Brasil.

Escondidos atrás da árvore, Jean Manzon e eu, isto é, Eu e Jean Manzon,
aguardávamos  a  aparição do Lobo Mau, que deveria  surgir  a  qualquer
momento. Depois de duas horas de esperar cinco minutos, surgiu, afinal,
a  figura  repelente  do  Lobo  Mau.  A  cara  do  Sr.  Lutero  Vargas.
Conversamos  com ele longamente. Minucioso nas suas intenções,  o  Lobo
Mau  deixou-se,  porém, convencer, não sem uma certa  relutância.  Jean
Manzon  bateu-lhe  várias  fotografias. Assim, devidamente  combinados,
partimos  para  a casa da avozinha de Chapeuzinho Vermelho,  depois  de
"conversarmos" o Lobo. Ele enviaria Chapeuzinho para a casa de sua avó,
enquanto  nós tomaríamos o lugar desta, Manzon escondido dentro  de  um
armário  para  tirar  fotografias. Amordaçamos  a  velha  facilmente  e
deixamo-la na cozinha. Meia hora depois, Manzon já instalado no armário
e  eu  na  cama,  com  o  cobertor até o queixo para  que  ela  não  me
reconhecesse, ouvimos a batida de Chapeuzinho Vermelho à porta: "Entre,
minha netinha", disse eu. Chapeuzinho Vermelho entrou. É uma bela  moça
de  seus vinte e dois anos, linda e bem feita de corpo. Se aproximou de
mim  e  perguntou como eu estava: "Ah, muito bem, minha filhinha, muito
bem."

-  "Vovó"- disse ela, enquanto Manzon batia imperceptíveis  chapas
   através  do buraco da fechadura do armário - "por que a senhora
   está com tão pouco cabelo?"

-  "Ah,  minha  filha,"-  respondi  eu  -  "é  de  tanto  procurar
   assunto."

-  "Vovó"-  disse então Chapeuzinho Vermelho - "por que a  senhora
   tem as orelhas tão grandes?"

-  "Ah, minha netinha, é para ouvir tudo que dizem por aí."

-  "Vovó, por que a senhora tem os dentes tão aguçados?"

-  "Ah, minha netinha, isso é o Barreto Pinto quem sabe."

Depois de perguntar isso, Chapeuzinho Vermelho pôs-se a mudar de roupa,
tendo  Manzon  batido sensacionais flagrantes. O ilustre causídico  Dr.
Evandro  Lins e Silva nos defenderá das infames calúnias  que  ela  nos
atirou.

-----------------------------------------------------------------------
                             
                      O ESPÍRITO SOBRENADARÁ
     Estilo metafísico (à maneira de Austregésilo de Athayde)
                            Millôr 1949

                                ***

Tenho que Chapeuzinho Vermelho, essa pobre moça vítima das insídias  do
Lobo  Mau, não está sozinha nesta Batalha de Eras. Envolvida  no  ardil
torpe  de um ser altamente experimentado nas artimanhas de nosso  tempo
ela  se  deixou  sucumbir. Não deduzamos, porém, loucamente,  que  tudo
esteja  perdido. A floresta em que Chapeuzinho se perdeu  é  o  próprio
símbolo  dos desvios e perigos a que estamos sujeitos neste  mundo  sem
Fé.  E  quando  ela  pergunta  e  pede  informações  em  sua  inocência
fundamental, quem a guia e orienta é justamente um ser da pior espécie.
Já  a própria primariedade do ardil empregado indica a pureza da jovem.
Outra,  de  maiores recursos imorais, experiente na lógica  prática  da
vida, teria compreendido e resistido ou se perdido para todo sempre.

Conheci   Chapeuzinho  Vermelho  quando  me  dirigia  para   a   Missão
Livingstoniana, logo depois de terminada a Grande Guerra. Sei por  isso
que  não  pensou,  dada  a  pureza que lhe  reconheci,  nas  diferenças
primaciais entre sua Avó e o Lobo. Isso a salva e aniquila o  valor  do
Mal.  E  bastaria  que  dessa  catástrofe  sobrasse  a  glória  de  sua
inocência, para que qualquer homem de Bem pudesse continuar a  crer  na
sobrevivência do amor. Pois está no plano da natureza que a alma é mais
importante  que o corpo, e, salva a parte mais importante  da  criatura
humana em Chapeuzinho, está salva com ela a humanidade.

-----------------------------------------------------------------------
                             
                        TRAGÉDIA DE PAIXÃO
         Estilo telúrico (à maneira de Raquel de Queiroz)
                            Millôr 1949

                                ***

O  caso  triste  deu-se por estas bandas - ela magrinha  e  jeitosa  ia
passando  pelo caminho do Quixadá levando no braço a cesta de  baba-de-
moça e de pudim de coco que a mãe fizera para a vó quando o tipo forte,
grosso, simpático, saltou dos matos e interrompeu-a:

-  "Onde  é  que  tu  vai com esse chapeuzinho tão vermelhinho  na
   cabeça?"

Ela  ficou  de  medo rija, mas ao mesmo tempo achava o moço  simpático,
disse  que ia ali mesmo levar uns negócios pra vó, ele perguntou aonde,
disse se não podia acompanhá-la. Ela se fez de rogada, abanou que  não.
Mas  o  tipo  era sabido, conhecia a redondeza, atravessou  a  ribeira,
pulou  o  cercado, arrodeou o açude, afastou os porcos na  engorda  por
trás   da  casa  do  Chico  Vira-Mão  e  foi  desembestar  suarento   e
resfolegante na casa da avó da Cabecinha Encarnada. Só teve mesmo tempo
de  matar a velha, enterrar embaixo da banheira e se deitar na cama que
já as batidas fracas na porta diziam que a mocinha estava ali.

Diz que ela entrou, botou os doces em cima do baú e foi dar uma palavra
com a vó que há muito não via. Estranhou e perguntou:

-  "Vovó, por que a senhora está com orelhas tão grandes?"

A  vó respondeu que estava ficando velha, que orelha de gente velha vai
mesmo  crescendo,  depois explicou a ela que  seu  nariz  estava  assim
porque  ela  tinha pegado um golpe de ar e, na hora em  que  a  mocinha
perguntou  por que aqueles dentões tão enormes, o tipão já  não  deixou
nem  ela  ter  tempo de falar mais nada, tapou-lhe a  boca,  puxou  uma
peixeira  e  tome  facada.  Foi preso, está esperando  condenação.  Aos
jornalistas  diz que não se arrepende, que tinha amor,  depois  teve  o
amor  transformado em ódio e que prefere ver ela morta que com cara  de
nojo  pra ele. Diz que prisão por prisão prefere mesmo essa, que  homem
foi feito pra sofrer duro mas não para penar de mulher viva.

                                ***

---

Agradecimento pela remessa ao amigo:

   Luiz Gravata <gravata@gravata.com>



- c.a.t.