O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 129 - Escrito em: 1993-08-31 - Publicado em: 1993-09-06


Frisk


Quando a maldição dos virus começou a assolar nosso pacato mundo microinformático, demorou um pouco até que a coisa toda se desmistificasse. Afinal, não passavam de programinhas indesejáveis que se espalhavam de micro em micro através da promiscuidade disqueteana ou de downloads imprudentes. E cada um foi tratando de encontrar alguma ferramenta que prevenisse sua amada maquineta contra o covarde ataque dos virus. Muitos programas anti-virus surgiram no mercado e no final das contas, cada micreiro acabou adotando um ou outro de acordo com seu gosto pessoal. No meu caso, quando aparece um disquete de origem duvidosa ou quando faço download dum novo arquivo de BBS, nunca deixo de passar um SCAN da McAfee. Mas na retaguarda estou equipado com um silencioso e fiel guardião, um software residente que fica eternamente de olho no que se passa no micro, farejando qualquer ameaça virótica que se manifeste. Este programa cão de guarda é o F-PROT e foi escrito por um mancebo chamado Fridrik Skulason, apelidado Frisk.

Esse sujeito eu já admirava há tempos, desde que começou a aparecer nos bancos de programas dos BBS cariocas uma revista chamada Virus-L, publicação eletrônica distribuída via Internet, destinada a divulgar as mais recentes descobertas no campo da anti-virologia computacional. Um dos mais ativos contribuintes da Virus-L é o Frisk, pesquisador que dedicou a vida a investigar e isolar as milhares de assinaturas em código hexadecimal que identificam cada um dos virus conhecidos. Mas uma coisa que sempre me encucava no Frisk era o fato de ele morar naquele fim de mundo, Reykjavik, na Islândia. Como é que um cara enfiado naqueles cafundós era tão famoso e conseguia sempre estar à frente nestas pesquisas anti-virus? Quando chegamos a Reykjavik, batí um fio para o Frisk para que nos dissesse o melhor caminho para chegar ao seu quartel-general. Fomos bater num prédio comercial novinho em folha, bem no coração da cidade. Um andar inteiro é agora ocupado pela empresa Frisk Software. O cara nos recebeu com a maior simpatia, um figuraço, cara de cientista louco. Na sua espaçosa sala de presidente-diretor-semideus, ostenta duas poderosas máquinas, a da esquerda rodando o velho MS-DOS e a outra, que roda Unix, está ligada à Internet e é de lá que ele edita a valiosa Virus-L, em cooperação com alguns colegas espalhados pelo mundo afora.

Para nossa surpresa, ficamos sabendo que hoje o Frisk vive exclusivamente de sua criação, o programa shareware F-PROT. Este software começou como um conjunto mal articulado de 11 programas diferentes, e era chamado "Chave de Pedro". Foi ficando famoso e provou ser bastante eficiente. Até que o autor resolveu reescrever totalmente o código e produziu as novas versões atualmente distribuídas, mudado o nome para F-PROT, para evitar indesejáveis conotações religiosas que poderiam atrapalhar a venda do produto para os países árabes. Grandes empresas nos EUA e Europa adotaram-no como padrão anti-virus. A Hewlett-Packard, por exemplo, comprou 50 mil cópias do programeto. E assim a coisa foi crescendo e hoje nosso Frisk está se enchendo da grana. Quando estávamos no seu escritório ele estava acabando de fechar uma venda de 100 mil cópias para uma gigantesca multinacional sobre cujo nome me pediu segredo. Hoje em dia o mago Frisk dedica-se quase exclusivamente a estes valiosos contatos, tendo deixado o trabalho duro a cargo de dois mestres em programação pesada. Um deles é um inglês doido também habitante de Reykjavik, chamado Adam David que, durante nossa troca de mensagens antes de viajar, me pediu que lhe levasse um saco de erva-mate para chimarrão e meia dúzia de limões. O outro sujeito vive na ex-União Soviética, é um verdadeiro gênio em linguagem Assembler e trabalha para o Frisk por 1000 dólares mensais, destrinchando assinaturas de virus. Antes de me deixar pilotar suas potentes máquinas, o Frisk nos levou à sua sala sagrada. Um pequeno quartinho com mais de quinze gavetas cheias de disquetes contendo exemplares isolados e ativos de todos os vírus conhecidos. Tive verdadeiros calafrios naquela saleta e logo abandonei o recinto, dirigindo-me para a máquina Unix do anfitrião. Encontrei um grosso livro aberto diante da workstation preferida do Frisk e imaginei ser algum complexo manual de software. Que nada: o manual que nosso bem-sucedido anti-virólogo hoje consulta sem parar é um grosso catálogo todo rabiscado e manuseado contendo análises das mais rentáveis ações da bolsa de valores de New York.


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