O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 158 - Escrito em: 1994-06-21 - Publicado em: 1994-03-28


Encontro dos cinzentos


Em meados do ano, no pacato vilarejo de Las Vegas, EUA, teve lugar um dos mais extraordinários eventos até hoje realizados no submundo da computação, o DEF CON I. Classificado por muitos pesos-pesados da imprensa informata norte-americana como a mais estranha e sensacional conferência promovida no ramo, o DEF CON já se firmou como a grande oportunidade que os cinzentos da informática têm para trocar figurinhas e calor. No presente ano, lá vem o DEF CON II, certamente muito maior e melhor do que o primeiro. O anúncio inicial foi metralhado em diversos BBS e nas poderosas malhas da Internet por um senhor chamado Conal Garrity no início do ano, mas com as caixas de correio, tanto a física quando a digital, sempre abarrotadas, só agora pude lhes trazer a boa nova.

Falar num evento portentoso como este, que será realizado novamente no Hotel Sahara em Las Vegas, Nevada, nos dias 22, 23 e 24 de julho, só serve mesmo para botar água na boca dos conterrâneos. Afinal, apenas alguns poucos ungidos têm estofo para bancar um passeio desses. Entretanto, umna vez que já se lê papos em mensagens de BBS sobre a intenção de alguns colegas BBSzeiros de se despencarem para locais longínquos como Finlândia, Holanda e Alemanha para participarem de eventos semelhantes, vale a pena o toque. O DEF CON II superará qualquer acontecimento underground similar no planeta no ano de 1994, podendo ser ameaçado apenas pelo HOHOCON II, também nos EUA, sobre o qual nada se ouviu ainda.

O efeito de uma convenção como o DEF CON II sobre a comunidade informata mundial é tão sutil quanto a patada de um elefante. Abertamente destinado a atrair a "elite" do submundo da ciência da computação, este encontro mundial reunirá a nata dos "hackers" (penetradores em sistemas computacionais proibidos), phreaks (magos especializados em derrubar troncos telefônicos internacionais), hammies (dedicados à transmissão de dados e mensagens digitais via radio), produtores de virus, programadores de baixo nível, crackers (burladores de esquemas de proteção de programas), cyberpunks, futuristas e grupos ativistas variados. Naturalmente, um grande número de "infiéis" participarão da festa, o que propiciará a rápida difusão das novas técnicas apresentadas, contribuindo de maneira extremamente positiva para o aumento de eficiência nos padrões de segurança computacional nos mais diversos setores. Aprendendo a burlar sistemas é possível protegê-los melhor contra eventuais ataques, que ultimamente vem se mostrando cada vez mais sofisticados e audaciosos.

Os participantes são fortemente encorajados a levarem seus laptops munidos de lépido modem e software de comunicação, além de bastante espaço livre em seus discos rígidos. Haverá à disposição dos felizardos 16 portas para conexões seriais à Internet, graças à empresa CyberLink Communications Inc.

Totalmente diferente do velho ramerrame da Comdex, o DEF CON II aguça o interesse dos órgãos de segurança do titio. Muito embora os organizadores do evento façam questão de enfatizar que hackers malignos e baderneiros digitais não são bem-vindos, estes nefastos personagens aparecem aos montes, fazendo do encontro uma chance ímpar para mapear e identificar potenciais infratores e criminosos digitais. Numerosos são os agentes que se infiltram nas palestras, nos workshops e nos bate-papos, visando coletar informações preciosas. A presença deles no evento até introduz um certo clima de fruto proibido, sempre levado na gozação pelos participantes. No DEF CON I, por exemplo, houve uma promoção que será repetida em 94, chamada "Spot the Fed" (encontre o agente federal), cujo objetivo era identificar agentes no meio da massa de gente. Quem conseguisse lograr o intento ganhava uma camiseta.

As palestras do DEF CON II vão até tarde, com apresentações e fóruns especiais avançados começando à meia-noite. O pessoal é animadíssimo e dormir é considerado perda de tempo. É tudo gente acostumada a virar noites e noites seguidas à base de muito café ralo e outras químicas menos recomendáveis.

Nesta segunda edição do DEF CON, a qualidade e a quantidade das palestras serão ainda maiores. O preço do ingresso é de US$ 15 para pré-registro e US$ 30 à porta do evento. O Sahara oferece quartos com preço especial de ocasião: US$ 55 (single/double), US$ 65 (triplo) e US$ 120 (suite). Mencionar o DEF CON II na hora de reservar acomodação. Pelo perfil underground dos participantes, serão autorizados registros com "alias" (pseudônimos). Recomenda-se não permitir que carregadores toquem na sua bagagem, se não lá se vão mais US$ 3. Quanto ao rango não há motivo para preocupação. Haverá fast-food em todo canto e birita também.

Se você tiver interesse em saber mais pormenorizadamente como foi o encontro no ano passado, dê uma vista d'olhos na "New Media Magazine" (setembro 1993), nas "InfoWorld" de 12 e 19 de julho de 1993, na "Gray Areas Magazine" (volume 2 número 3 Fall 1993) e na "Phrack" número 44.

Quem tiver acesso Internet pode se manter atualizado, buscando as últimas novas sobre o DEF CON II através de ftp anônimo no site cyberspace.com, diretório /pub/def-con. Encontrará muitos textos, fotos e palestras digitalizadas, além das últimas notícias sobre os preparativos para o grande acontecimento. Quem quiser alguma informação específica pode enviar e-mail para o famoso Dark Tangent, cujo endereço é dtangent@defcon.org. Quem ainda não estiver na Net, pode ligar para o The Alliance BBS 001 (612) 251-8596, velocidade 16.8 kbps, Dual Standard, 24 horas. Usuários obtêm acesso irrestrito logo na primeira conexão. O Sysop chama-se Metal Head. Para contato por via postal profana, escreva para DEF CON, 2709 E. Madison Street Suite 102, Seattle, WA 98112, EUA. Se quiser falar com um Voice Mail ou, quem sabe, com o próprio Conal Garrity, consiga um contato nos EUA que disque para você 0-700-TANGENT num telefone AT&T.


[ Voltar ]