O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: Entrevista Y2K - Escrito em: 1998-03-23 - Publicado em: 1998-03-30


Lembrete -- Y2K esta chegando


O keynote do terceiro dia da COMDEX-Rio, em 02 de março de 1998, será do Sr. HARRIS N. MILLER, Presidente da ITAA (Information Technology Association of America) <hmiller@itaa.org>. A associação se ocupa de assuntos e procedimentos relacionados ao problema do ano 2000. É conferido pela ITAA o único certificado industrial de programas voltado para esse fim. A ITAA já "educou" centenas de executivos do governo americano e da iniciativa privada sobre este assunto crítico. O bate bola foi conduzido com o Sr. Miller via e-mail.

CAT: Assumindo que muitas companhias não estarão aptas para o momento fatídico da virada do ano 2000, quais são os perigos de ameaças à vida humana e catástrofes semelhantes causadas por mau funcionamento de software em geral em função do armazenamento errôneo do campo "ano"?

HARRIS N. MILLER: Uma das frustrações do problema Y2K (Year 2000) é que os efeitos colaterais e de "Ripple" são virtualmente impossíveis de prever. A meta de todas as indústrias é reduzir o risco à vida e à propriedade a zero. Os países que demorarem a iniciar seu trabalho de conversão ou que não se empenharem em resolver de forma séria a situação, estarão fazendo estes riscos aumentarem perigosamente.

CAT: Qual é a aceitação e o prestígio do certificado Y2K conferido pela ITAA nos EUA? E no resto do mundo?

HM: Tanto nos EUA quanto no resto do mundo o prestígio do programa ITAA*2000 é bem alto. Mais de 500 questionários foram distribuídos para empresas interessadas e cerca de 70 delas já receberam o certificado, incluindo grandes corporações como Prudential Life Insurance e BankBoston. Outras empresas na Grã-Bretanha, Canadá, Itália e Alemanha também já receberam o certificado.

CAT: Qual o percentual dentre os sistemas nos EUA já estão preparados para o momento Y2K? Quantos estarão prontos no instante final? E no resto do mundo? Alguns números disponíveis sobre o Brasil?

HM: Estimamos que menos de 10% das empresas americanas estão prontas agora para a virada do milênio, ou seja, aquelas que já converteram todos seus programas afetados, realizaram a bateria completa de testes e já entraram novamente em produção com os sistemas atualizados. Mesmo as empresas que já completarem suas atividades de conversão, checado interdependências com provedores de software, fornecedores-chave, clientes, agências governamentais e outras entidades, podem não estar aptas a realizar os testes finais nesse exato momento. Estimamos que os EUA estão 6 meses à frente que o resto dos países mais avançados no esforço Y2K, ou seja, Canadá, Austrália e Grã-Bretanha. Em relação aos outros países, a liderança dos EUA é de no mínimo 12 meses. Não temos número específicos sobre o Brasil.

CAT: Que habilidades são mais requisitadas pelas empresas, em termos de formação de pessoal, para atacar o problema atualmente?

HM: Os requisitos dependem basicamente do ponto em que se situa determinada empresa no ciclo de conversão de seus sistemas. Nos EUA, as necessidades se concentram em gerência de programação, testes, gerência de configuração e planejamento de contingências.

CAT: Quais linguagens de programação são mais requisitadas no trabalho de conversão, e sob que ambientes de processamento elas são necessárias?

HM: Novamente é difícil generalizar. COBOL é a linguagem mais utilizada para programação de aplicações em sistemas tradicionais (legacy systems), geralmente operando em plataformas IBM AS/400, VM e MVS. Há no entanto inúmeras exceções a esta regra.

CAT: Qual é o aumento esperado, por exemplo, no custo por hora de um programador COBOL, até a fase mais crítica da conversão dos sistemas?

HM: Temos notícia de que estes custos vêm aumentando de 20 a 25% a cada seis meses. O salário anual típico para profissionais graduados em processamento de dados nos EUA fica em torno dos US$ 40 mil. Profissionais com experiência em pacotes de bancos de dados como Model 204, IDMS e Datacom DB podem faturar bem mais, bem como o podem gerentes de programação de nível senior.

CAT: Qual o custo total estimado de todas as conversões Y2K nos EUA? E no resto do mundo?

HM: Estimamos que os custos Y2K nos EUA ficarão na ordem dos US$ 300 bilhões apenas para a conversão, sem levar em conta totais associados com perdas de produtividade, falência de empresas, litígios judiciais e outros fatores. Os custos globais chegarão à casa dos US$ 600 bilhões. Apenas como exemplo, a General Motors anunciou que estaria gastando só esse ano cerca de US$ 500 milhões para atacar o problema Y2K.

CAT: Sobre o programa de certificação do ITAA, caso uma companhia que tenha recebido o certificado venha a ter problemas críticos na virada do milênio, causados por conversão imprópria de seus sistemas, qual será a responsabilidade da ITAA, já que ela deu seu aval, indicando a companhia como pronta a encarar o desafio Y2K?

HM: A ITAA certifica os processos e métodos usados pelas companhias para encarar este desafio. Mas não vamos além deste ponto, ou seja, não certificamos a operação do software propriamente dita. Acreditamos que cada organização deve estabelecer seus próprios padrões e programas de certificação para prover esse nível de garantia.

CAT: Quais são os melhores produtos e serviços disponíveis hoje para a conversão rápida e confiável de sistemas visando a virada Y2K?

HM: Apesar de não podermos identificar produtos ou companhias, os clientes devem levar em consideração certos fatores no momento de avaliar um fornecedor, tais como seu histórico de atividades, quantidade e profundidade de recursos, o escopo das soluções oferecidas, a experiência em ambientes particulares de operação e a relevância da questão Y2K em relação a outros serviços essenciais, tais como ferramentas de teste e procedimentos de migração de software.

CAT: Existem no mercado produtos que possam oferecer uma solução imediata, do tipo "turnkey", ou seja, "ligou está pronto"?

HM: Muito embora alguns produtos sejam mais completos que outros, não estamos a par de nenhum que constitua uma "bala de prata", isentando o cliente da tarefa de acompanhar de perto a conversão e a reimplementação do ambiente de produção.

CAT: Existe alguma outra certificação similar à do ITAA na Europa e na Ásia?

HM: Não que nós conheçamos.

CAT: Alguma previsão do prejuízo que terão as companhias que não conseguirem se preparar a tempo para a virada do milênio?

HM: A estimativa mundial para esses prejuízos é da ordem de US$ 1,5 trilhões.

CAT: Qual a situação geral do Brasil em relação ao problema do ano 2000?

HM: Apesar de vermos o Brasil como líder nesse esforço dentre as nações da América do Sul, acreditamos que o continente como um todo está no mínimo 12 meses atrasado em comparação aos Estados Unidos.

CAT: Alguns meses atrás, um menino na Grã-Bretanha alardeou ter descoberto uma solução simples e efetiva para o problema Y2K. Na ocasião ele não revelou quaisquer detalhes sobre sua "brilhante" solução. Havia algo realmente sério naquilo tudo, ou era apenas um embuste?

HM: Pelo fato de não termos ouvido falar mais nada sobre o assunto desde o anúncio inicial, a solução encontrada parece não ter captado a atenção das forças de mercado. Pelo que lembramos, o menino era da Nova Zelândia, e sua "descoberta" era relevante apenas para o BIOS do PC.

CAT: Na página Web da ITAA, em <
http://www.itaa.org/frame3.htm>, diferentemente de qualquer outra página que jamais tenhamos visto, os nomes dos patrocinadores não estão ostensivamente exibidos na tela. O navegante deve clicar em um link para saber quem são eles: Microsoft, IBM e Computer Associates. Não seria interessante para esses três gigantes que tivessem seus nomes mais conspicuamente associados aos esforços da ITAA?

HM: No momento não temos patrocinadores pagantes ou anunciantes em nosso site web, muito embora acreditemos que o status de membro da ITAA beneficiaria todas as companhias de software.


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