O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 211 - Escrito em: 1995-04-05 - Publicado em: 1995-04-10


Nas raias da WaxWeb


Imagine juntar numa só panela os ingredientes informáticos que mais enlouquecem o cybermundo no momento: Internet, multimídia e realidade virtual. Pois pode parar de imaginar, pois isso já existe: é a Waxweb 2.0.

Não é nada fácil explicar o que seja a Waxweb, só mesmo mergulhando nela é que se pode ter idéia da loucura que é: um universo virtual que, até agora, ocupa 1,5 Gigabytes distribuídos na Internet e que cresce sem parar. Audacioso e faraônico projeto hipermídia espargido nas malhas planetárias da Internet, a Waxweb consiste de um documento dinâmico que pode ser acessado e modificado por usuários pilotando interfaces do tipo Mosaic e MOO.

Epa, devagar com a louça, Mosaic e MOO? Para quem boiou, Mosaic é uma das ferramentas para se navegar na Internet, mais propriamente numa entidade virtual chamada WWW (World Wide Web), ou simplesmente "web", como dizem os mais abalizados. Pense em telas gráficas com textos e pequeninas imagens. Algumas imagens, frases ou palavras desse texto estão brilhando e nelas você pode dar uma clicada com seu mouse. Abre-se então uma nova telinha do mesmo tipo, explicando a palavra ou foto que brilhava na tela anterior. E assim, você vai clicando aqui e ali e sai mergulhando num caminho em que as telas se sucedem seguindo um contexto. Esse encadeamento de telas se chama hipertexto.

E o tal do MOO? Existem jogos chamados RPG (Role Playing Games) em que o usuário encarna um personagem, assumindo suas aptidões, poderes e fraquezas. Quando um RPG pode ser jogado por várias "unidades humanas" ao mesmo tempo, via Internet, passa a se chamar MUD (Multi-User Dungeons). E - agora sim - quando um MUD é definido por objetos, muda de nome para MOO (pronuncia-se: "múú", como diria o boi - MUD's Object Oriented), ou seja, uma aventura em realidade virtual baseada em texto.

Agora vamos imaginar tudo isso distribuído numa rede mundial como a Internet, sendo oferecido em formato hipermídia, isto é: hipertexto, imagens, audio, video e realidade virtual - tudo ordeiramente misturado. E mais, pense que qualquer usuário participante da Waxweb pode (e deve) contribuir para o crescimento e melhoramento deste universo virtual, incluindo novos mundos, novas situações, novas criptas, passagens, câmaras e redutos - tudo isso em modo hipermídia.

Waxweb está online na grande rede desde fevereiro de 94 e, no momento, consiste de mais de 2.000 páginas de hipertexto disponíveis a usuários Mosaic e MOO. Naturalmente os mosaiqueiros são os maiores felizardos, pois podem se deliciar com as porções hipermídia do megadocumento, que inclui 4.800 frames (fotos), 560 video-clips em formato MPEG (formato de animação altamente comprimido e otimizado, primo do JPEG, que serve para imagens estáticas) e 2.200 audio-clips em formato AIFF, incluindo trilha sonora em inglês, francês, alemão e japonês. O texto que corresponde à voz no "filme" virtual pode ser inserido no idioma que o usuário preferir. Se você optar pelo japonês, fique tranqüilo que verá caracteres japoneses mesmo.

Esta teia mágica é na verdade uma estranha estória que vai sendo dinamicamente construída pela comunidade que dela participa. Um mundo imaginário em que os eventos e situações não necessariamente se sucedem de forma ordenada ao longo do tempo. Em virtude dos muitos usuários que criam dentro da Waxweb, o enredo diverge em múltiplas narrativas paralelas. A imensidão deste universo virtual é assombrosa e a quantidade de associações contextuais e detalhes é algo nunca visto. O sistema é engenhosamente projetado e permite a navegação de acordo com regras muito bem definidas, cujos detalhes extrapolam nossa limitação de espaço aqui. Diversos níveis são oferecidos: superstory, short-film, visual index, fragments, indo até os "opto-plasmic vehicle portals", que são as portas de entrada para a fase mais fascinante deste estranho mundo: o universo 3-D.

A parte tridimensional deste estranho mundo ainda não está totalmente operacional. Os idealizadores apostam no frenético crescimento da rede e nos melhoramentos tecnológicos de hardware e software, em termos de velocidade. A Waxweb 2.0 implementa uma nova especificação de interface espacial baseada numa linguagem de nome VRML (Virtual Reality Modeling Language), um esquema de realidade virtual tridimensional distribuída na web. Na semana passada, dia 4 de abril, a VRML foi endossada como sendo "o" padrão de meta-arquivo gráfico 3-D por alguns dos gigantes da indústria: Silicon Graphics, Netscape, Digital, Template Graphics (TGS) e NEC. Já existem 250 salas virtuais 3-D na Waxweb, dentro das quais poderemos voar, graças a cabeludíssimos programas especiais chamados 3D-VRML-browsers (browse = dar uma olhadela), que são verdadeiros mastigadores de números e cálculos, capazes de exibir 20 mil polígonos por segundo num Pentium. Cada objeto tridimensional na Waxweb possui um hiperlink que permite ao participante clicá-lo com o mouse e imediatamente mergulhar numa outra sala virtual também tridimensional, legível, visível e "voável". Antes que você se exaspere e saia feito doido pela rede atrás dos browsers, aviso: ainda estão em beta.

Para tornar a coisa toda mais rápida, a versão 2.0 da Waxweb oferece um CD-ROM que traz toda a parte já pronta do mundo virtual. Ao se conectar com a Internet, o CD-ROM se sincroniza com a web e apenas as transações de intercomunicação entre usuários passam a ocupar o tráfego da rede. Enquanto isso, os ambientes, objetos e links fixos estão disponíveis no CD-ROM, ao seu alcance local, na sua própria máquina. É claro que, sem o CD-ROM, a coisa ainda fica lenta demais.

Se quiser maiores detalhes, entre em contato com o pai da criança: David Blair <artist1@interport.net>. E quem vai resistir a dar uma browseada na Waxweb? Aponte sua mira de acesso regular na web para http://bug.village.virginia.edu. Se quiser voar em 3-D, acesse via VRML em http://bug.village.virginia.edu/vrml. Se quiser em texto-puro, basta dar um telnet para bug.village.virginia.edu, porta 7777. Esta coluna formalmente se exime de toda e qualquer responsabilidade, caso a leitora mergulhe na Waxweb e não consiga nunca mais se desgrudar dela, acabando por ficar maluca.


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