O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 225 - Escrito em: 1995-07-12 - Publicado em: 1995-07-17


Sissy Gúrama Landro


É só ficar uma semana longe da máquina que o beat fica acelerado e dá essa coceira nos dedos. Ainda mais quando, explorando o e-mail acumulado, aparece um estudo como o do Daniel Brandt na Computer Underground Digest número 7.55 (mande um corpo SUB CUDIGEST seu-nome-todo para LISTSERV@VMD.CSO.UIUC.EDU). É um verdadeiro tratado, mas esclarece bem parte do que se passa atrás da cortina.

Quando se fala em comércio pela Internet, o usuário fica logo de olho arregalado pensando na infinidade de bens que poderá consumir graças a este fabuloso canal transnacional. Mais arregalado ainda fica o olho do cyber-comerciante, diante do gigantesco mercado que se lhe apresenta de mão beijada. Mas e a pulga? Sim, essa pulga atrás da sua orelha, a segurança? Quem garante que a rede é segura? Como ter certeza que não vai existir sempre alguém escondido pesquisando cada pacote digital que voa pelos backbones da vida?

Se nos colocarmos no lugar do Grande Irmão, aquele do 1984 de Orwell, vamos encarar a Internet como uma estupenda fonte potencial para coletar informações e monitorar as atividades de nossas ovelhas. Poderemos nos pendurar nos grandes dutos de informações e sair sugando o que quisermos, baseados simplesmente nas user-id's dos remetentes e dos destinatários. Poderemos ainda filtrar certos pacotes baseados em palavras-chave interceptando mensagens que possam eventualmente significar pedrinhas em nossos sapatos. Em resumo, juntando o e-mail às outras formas usuais de bisbilhotice, ou seja, escutas telefônicas e acompanhamento de transações por cartão de crédito, veremos que as possibilidades de quebrar a privacidade de uns e outros aumentam adoidado.

Imagine um sujeito se preparando para viajar daqui pra lá. Investigando eletronicamente com os poderes que possui um servo do Irmãozão, é possível saber com antecedência quais vôos ele vai tomar, em que hotéis ficará, que carros vai alugar, que contatos locais vai fazer e qual vai ser o itinerário detalhado da ovelhinha, tintim por tintim. Se houver ainda um acompanhamento das conversas telefônicas do mancebo em viagem, de suas transações bancárias e das mensagens que ele trocou via e-mail, é possível ter em mãos, no fim das contas, todo o histórico de suas atividades. Em resumo, o esquema para se meter o bedelho na vida alheia está operando bem e vai melhorar cada vez mais.

Pense agora num daqueles hackers barra-pesada, bem descabelados e cheios de inhaca. Se o nosso cana pode saber de tudo em prol da lei, então o ser dos esgotos também pode, visando burlar essa mesma lei. Como dizia o saudoso Capitão Gancho da Holly Water: "Se foi gente que fez, então gente também desfaz".

Mas aí a leitora chega toda prosa e diz: "Mas eu uso PGP e ninguém me segura, catzinho". Certo madame, um fuçador de pacotes pendurado no backbone não vai quebrar a sua querida chave secreta. Mas ele certamente vai notar, no meio de milhares de mensagens comuns circulando pelos canais, que a senhora e seu interlocutor estão trocando muitos textos contendo o string "BEGIN PGP MESSAGE". Aí um dia desses pode parar na sua porta uma kombi velha escrita Confeitaria São Jerônimo e a senhora pode acabar com um microfonezinho menor que uma barata dentro do seu abajur.

Trinta milhões de usuários trocando calor na grande rede. Ninguém na roda do leme, ninguém pode puxar o fio da tomada. Se um dos gigantes das telecoms resolve chutar o pau da barraca e desligar a chave principal de seus circuitos, os pacotinhos simplesmente se roteiam em torno da obstrução e chegam aos seus destinos tranquilamente, pelas milhares de rotas alternativas que sempre existem. Afinal a Internet foi projetada para ser assim, invulnerável a ataques. E ponha-se firewalls e passwords por todo lado: sempre haverá um hacker mais safo que vai furar a malha e fazer a festa.

Ao que parece, o Grande Irmão tem um problema. Mas veja uma coisinha, ó leitora que tanta paciência tem com este seu colega. Quem são os incomodados? As agências de segurança? As CIA's e ex-KGB's da vida? Qual nada. Eles não são otários de pendurarem seus databases pretíssimos nessa rede mais furada do que peneira. O Big Brother amuado é a grande corporação, o big business, doido para botar a mão nesse tesouro e tendo que matar um monte de moscas, esses malditos furadores de sistemas que não têm mais o que fazer senão encher a paciência, diacho.

Enquanto o problema da segurança não for bem resolvido, a Internet não poderá ser usada maciçamente para transações comerciais sérias. As grandes companhias parecem estar alimentando a mídia com estórias assustadoras sobre intrusões desastrosas e espectros funestos que invadem sistemas e necrosam seus arquivos. Do outro lado, pentágonos e outro polígonos borbulham em exaltações à segurança nacional. Some-se a isso contos tenebrosos de criancinhas sendo atacadas por transviados digitais na superhighway e temos um perfeito quadro motivador para que se criem leis arrochantes e repressivas na Internet. Aí a moda pega rapidinho, como pegam as modas nesse mundão de mentes bem lavadas, e a teia está armada. A aranha, à espreita, fica só esperando a borboleta e nhac.

Para contrabalançar, mandam botar em toda capa de revista do mundo "civilizado" um camarada de óculos, podre de rico com seus 13 Gigaverdes, carinha de bom môço, e dizem que ele é a salvação do cyber-universo e que seu empório vai vender remédio para toda moléstia. E vamos todos cair nessa, pode esperar.


Que tal pegar um ônibus de turismo e dar uma volta pelos pontos mais quentes da redezona? A equipe do Patrick Douglas Crispen <PCRISPE1@UA1VM.UA.EDU>, o criador do famoso curso ROADMAP sobre Internet, juntou-se à equipe do "Doctor Bob" Rankin <BOBRANKIN@MHV.NET>, colunista da revista Boardwalk e autor do melhor texto sobre acesso e-mail à rede. O resultado dessa parceria é o TOURBUS, uma lista gratuita que pretende levar o assinante a um passeio virtual pelos mais interessantes sites FTP, Gopher e WWW. Quem chegar atrasado para o passeio receberá instruções sobre como obter os números atrasados, tudo via e-mail. Para participar, mande mensagem para MAJORDOMO@COLOSSUS.NET, tendo no corpo apenas o texto SUBSCRIBE TOURBUS.


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