O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 262 - Escrito em: 1996-08-23 - Publicado em: 1996-09-02


Censuringapura


Ontem em Cingapura começou um descomunal trabalho de censura, com o objetivo de impedir que os 120 mil usuários Internet naquela florida ilha possam acessar sites Web contendo discussões sobre tópicos banidos pelo governo: segurança nacional, anúncios alarmistas, satanismo, práticas ocultistas, permissividade, perversões sexuais, pornografia, homossexualidade, lesbianismo, pedofilia, questões raciais, religiosas e críticas ao regime.

A Human Rights Watch, seção Ásia, encaminhou uma cabeludíssima carta ao SBA (Singapore Broadcasting Authority) condenando a iniciativa. Maiores detalhes em <http://www.eff.org/~declan/global>.

Cá entre nós, não precisavam exagerar, querendo censurar tudo isso duma vez. Mas ao invés de deixar correr solto, uma censurazinha às vezes até que pega bem. A Internet, como se sabe, virou casa da mãe Joana. Rola de tudo. Já ví na rede coisas de arrepiar os cabelos da orelha. E com o uso da criptografia, o que tem de celerado, traficante e psicopata navegando é de assustar. "Liberdade total!" -- é o que dizem. Mas isso não funciona, sorry. Eu não poria uma fitinha azul na minha home page, jamé. É só olhar ao seu redor, olhe o seu corpo. Quando a Natureza se descuida e deixa tudo liberado, a coisa desanda e acaba nascendo em algum lugar uma perebinha que cresce, cresce, se descontrola, vira câncer e você... babau.


No dia 23/07/96 foi criada na Artnet [segue inevitável cacófato] uma mailing list da ANUI -- Associação Nacional de Usuários Internet. O objetivo da entidade é prover a comunidade de parâmetros que permitam avaliar consistentemente produtos e serviços Internet no Brasil, conscientizando o internauta sobre o que exigir e o que esperar de um fornecedor. Note-se que a ANUI não pretende assumir sempre posições contrárias a esses fornecedores. A intenção é aplaudir e exaltar os bons produtos e serviços e apontar as falhas dos maus.

Se quiser assinar a lista, mande mail para <listserv@artnet.com.br> com subject em branco e corpo da mensagem ogual a "add anui" sem as aspas. Se quiser enviar um texto para ser distribuído na lista, mande-o para <anui@artnet.com.br>. Visite a sede virtual da Associação em http://www.cinemabrazil.com/ANUI.br e não deixe de se cadastrar na ANUI, pois assim procedendo você estará dando seu apoio formal a uma nova entidade civil que está se formando para defender os interesses e direitos dos interneteiros no Brasil. Participe.


Em um dos digestos mais interessantes que conheço na Internet, o Risks-Forum Digest (de 08/08/96 Vol.18 Issue 30), apareceu uma carta de um cavalheiro chamado Rene <Rshek@aol.com> que vale a pena traduzir. Naturalmente troquei uns e-mails com ele antes, e obtive sua entusiasmada autorização. Fala Rene:

"Um de meus colegas circula nessa lista e eu gosto de dar uma peruada de vez em quando. Estava interessado em ler sobre a sempre crescente complexidade da vida e sobre a proliferação de controles remotos, manuais, baterias e coisas do tipo. O risco que corremos nem é de que o mundo se torne exageradamente complexo e então fracasse, deixando-nos perdidos, cegos e desnorteados. O risco real é que as pessoas vão se tornar excessivamente dependentes de coisas externas e perderão a consciência de que aquilo que realmente precisamos está dentro de nós.

MAS, o que aconteceria se a eletricidade e os telefones deixassem de funcionar AO MESMO TEMPO? Poderíamos tentar exercer algumas das esquecidas atividades humanas: poderíamos contar histórias, poderíamos cantar, dançar e até pensar. Poderíamos meditar, poderíamos conversar com as pessoas que compartilham nossa casa, apartamento ou vizinhança, acenderíamos velas e lampiões à noite, faríamos uma fogueira e leríamos livros, daqueles comuns: "analógicos", de papel.

Com tantas novas ferramentas e tecnologias, é fácil acreditar que sem a última versão, ou sem aquele produto favorito, seríamos incapazes de prosperar, ter sucesso, divertir-nos ou termos ambições. Mas isso é falso. O melhor uso da tecnologia é harmonizá-la com o poder interno dos seres humanos."


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