O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 289 - Escrito em: 1997-03-03 - Publicado em: 1997-03-10


Espírito de porco


Parece que essa tão falada globalização da economia veio mesmo prá ficar. Mas será que, na hora de encher o bolso de grana, as companhias viram a cara para tópicos importantes como segurança nacional e coisas do gênero? Ou seria tudo uma grande jogada?

O governo americano, através de seu Departamento de Comércio, está de olho nas recentes vendas da Silicon Graphics para a Rússia. Foram quatro supercomputadores vendidos para um instituto de pesquisas em Física, sem as devidas licenças de exportação. O tal instituto chama-se Chelyabinsk-70, famoso nos tempos da Guerra Fria como sendo o super-laboratório onde foram projetadas a maioria das armas nucleares russas. Se quiser dar uma visitada no famigerado laboratório, aponte para a Technical University of Chelyabinsk em http://www.tu-chel.ac.ru/, mas como nem você nem eu temos olhos treinados de espião, nada demais veremos no site.

Para proceder ao negócio, a Silicon Graphics foi informada que a Universidade usaria as maquinetas para "modelagem matemática da poluição terrestre e aquática causada por espalhamento de substâncias radioativas". A operação foi contra determinação do governo americano, que desde janeiro de 1996 vem impedindo a venda de engenhocas com velocidade maior que 2 bilhões de cálculos por segundo, para qualquer laboratório nuclear russo.

A poeira ainda estava no ar, quando surgiu a notícia de que o Ministério de Energia Atômica da Rússia havia pago US$ 7 megas para que um intermediário europeu comprasse e lhes repassasse um lindíssimo super-computador IBM RS/6000 SP, capaz de realizar 10 bilhões de operações por segundo. No ano passado, a IBM e a Hewlett-Packard já andaram tentando vender essas muambas para os russos, mas levaram um barulhento chega-prá-lá do governo. O argumento do Tio Sam é que, apesar de as relações entre os dois países estarem calmas, os EUA são um alvo potencial da Rússia, caso engrosse o caldo. Alguns espertinhos na Usenet maldosamente sugeriram que uma forma ideal de sabotar o programa nuclear russo seria vender para eles um autêntico sistema IBM, especialmente se ele estivesse rodando Windows. Eita língua venenosa desse povo.

Mas a novela não pára aí. Mal admitiu a venda para os russos, a Silicon reconheceu que em julho de 1996 também havia vendido duas super-máquinas para a Academia Chinesa de Ciências, entidade envolvida em pesquisa de armas nucleares e mísseis. Novamente a mesma irregularidade: falta de licença de exportação. Essa máquina adquirida pelos chineses é duas vezes mais poderosa do que a comprada pela turma de Chelyabinsk e seria usada como "backbone" para interligar vários institutos da academia chinesa.

A leitora decerto nunca imaginou que essas empresas fossem tão ingênuas, vendendo equipamentos estratégicos de calculeira pesada para inimigos militares em potencial. Mas será que isso não lhe cheira a cavalinhos de Tróia digitais? Macacos me mordam se nesses super-computadores não existem discretíssimos módulos para fuxicar o que seus usuários estão fazendo e depois contar tudo tudo para o titio.


Comércio na Internet já é coisa comum. Compra-se quase qualquer mercadoria na rede. Basta se cadastrar on-line, informar alguns dados pessoais, seu número de cartão de crédito, receber sua senha pessoal e intransferível e lá está você consumindo adoidado. No caso das empresas que cobram pelo acesso a seus sites na Web, elas não estão tendo tanto lucro quanto pensavam que teriam. O furo em sua lucratividade está no fato de muitos clientes fornecerem suas senhas para parentes e amigos. Essa mamata é algo difícil de se combater. Uma das maneiras seria permitir ao cliente se logar no site apenas uma ou duas vezes por dia. Porém, diante da mera menção dessa estratégia, a comunidade Usenet de Web-usuários pagantes já está tiririca da vida.


Você já participou de uma videoconferência online, seja via Internet ou não? É uma das maiores emoções que poderá vivenciar nessa vida. Você papeando com quatro ou cinco figurinhas na sua tela, meio insatisfeito com suas falas e movimentos entrecortados, mas feliz da vida com o brinquedinho novo. Gente espalhada por locais remotos do planeta, trocando idéias em tempo real graças a esse milagre tecnológico, é uma coisa realmente maravilhosa. Mas se quiser tornar a experiência ainda mais interessante, acione seu espírito de porco e siga essa dica simples e eficiente: mova seus lábios sem emitir som. Toca o maior rebú na videoconfa. Nego fica todo nervosinho, chama o suporte, começa a dar dica de como regular o microfone e a Sound Blaster, sugere macetes mil e você fica lá fingindo que nada está acontecendo, só mexendo a boquinha. Só não vale perder o controle e cair na gargalhada.


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