O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 307 - Escrito em: 1997-07-07 - Publicado em: 1997-07-14


O perigo dos Leonids


Cada vez menos os pacotes de informação da nossa querida Internet estão trafegando por fios de cobre e de fibra ótica. Fora os balões estratosféricos SkyStation, a forte tendência é a transmissão Internet por satélite, uma opção cara, mas já em franca implementação -- vide o sistema Iridium de que tanto se fala ultimamente.

Recentes estudos astronômicos advertem que a chuva periódica de meteoróides chamada Leonid, que ocorre a cada 33 anos, poderá danificar satélites em órbita, por ocasião de suas próximas "edições" em 1998 e 1999. Os meteoros Leonid ocorrem de 15 a 19 de novembro, atingindo seu clímax no dia 17. Este fenômeno foi registrado pela primeira vez no ano 902 D.C., por astrônomos chineses. Os Leonids têm esse nome porque o seu radiante, ou seja, o ponto no céu de onde parecem "brotar" radialmente os meteoróides, por efeito de perspectiva, fica na constelação do Leão -- Leo. Nos momentos de maior intensidade em sua última grande aparição, em 1966, chegaram a cair 150 mil meteoróides em uma hora. Espera-se para 1998 um espetáculo semelhante, para observadores situados no Extremo Oriente, com condições de visibilidade especialmente favoráveis, por serem noites de Lua nova. No ano seguinte deverá ocorrer também uma pesada chuva de Leonids na Europa Ocidental, mas a Lua estará cheia. De qualquer maneira, advertem os astrônomos que, em qualquer lugar do mundo os interessados devem ficar atentos, pois estas áreas geográficas podem variar muito.

O raro fenômeno dos Leonids ocorre quando a Terra passa através de uma tempestade de meteoróides, pouco tempo antes ou depois do cometa 55P/Temple-Tuttle (antigamente chamado 1866-I) ter se aproximado do Sol, espalhando partículas frescas de sua própria massa. Esse tal cometa andou meio que perdido por uns tempos, mas foi redescoberto em março do corrente ano por equipes dos observatórios de Mauna Kea, no Hawaii e La Silla, no Chile. Em 17 de novembro de 1998 a Terra novamente penetrará numa região mais densa dessa tempestade cósmica, 9 meses após o mencionado cometa ter atingindo seu periélio. Seus pequenos destroços ainda não terão tido tempo de se dispersarem, de modo que nosso planetinha estará cruzando uma zona bem "empoeirada" do espaço.

As partículas de poeira que produzem os Leonids são bem pequenas, sendo que as maiores têm diâmetro variando entre 1 e 10 milímetros. Assim, as chances de colisão de pedações graúdos com astronaves e satélites são bastante reduzidas. O medo dos cientistas é que agrupamentos dessas partículas provavelmente irão criar nuvens localizadas de carga elétrica ou plasma, que poderão penetrar nos satélites e causar curtos-circuitos e avarias similares.

A alta velocidade dos meteoróides Leonid, cerca de 255 mil km/h, ou seja, três vezes a de um meteoróide comum, favorece bastante a produção dessas perigosas nuvens de material carregado, que podem gerar descargas de verdadeiros raios dentro de satélites, torrando no ato os componentes eletrônicos mais sensíveis.

Visite a homepage oficial da NASA para a chuva Leonid, em http://prometheus.arc.nasa.gov/~leonid/ . Um artigo muito interessante em inglês, de autoria de Joe Rao, pode ser encontrado em http://www.skypub.com/meteors/leoking.html . Participou da ILW (International Leonid Watch) um astrônomo brasileiro, por ocasião das observações dos Leonids em 1996: Gilberto Klar-Renner <klar@plug-in.com.br>, de Porto Alegre, RS. Se você também quiser participar da ILW, mande e-mail para o Dr. Peter Jenniskens <peter@max.arc.nasa.gov> . Além dele, mais três especialistas estão à disposição para responder perguntas sobre os Leonids: Dr. Donald Yeomans <yeomans@jpl.nasa.gov>, Dr. Iwan P. Williams <I.P.Williams@qmw.ac.uk> e Peter Brown <peter@canlon.physics.uwo.ca> .

Uma outra chuva de meteoróides, chamada Perseids, pôs a nocaute um satélite de comunicações em 1993. Com o tráfego da Internet cada vez mais apoiado nesses notáveis aparelhos, é de se esperar encrencas nos próximos dois anos, durante o mês de novembro. Pode ser precipitado o aviso, mas mal não vai fazer: prepare-se para atrasos em suas conexões internacionais nesses poucos dias.


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