O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 310 - Escrito em: 1997-07-28 - Publicado em: 1997-08-04


O resgate dos arcades


No final da década de 70 era fácil encontrar em lojinhas espalhadas pela cidade e nos grandes shoppings da cidade, aquelas antigas máquinas de videogame chamadas Arcades (pron. ar-kêids). Você comprava as fichas e ia torrando sua grana naquele vício. E era vício mesmo, mas eu ainda não sabia.

No final de 1982 um desses jogos, da empresa japonesa Taito, me chamou a atenção, em primeiro lugar pela sua dificuldade, depois por sua beleza geométrica. Era o Qix, criado no ano anterior. Nele, uma varinha de movimentos quase aleatórios chamada Styx, varria a tela de jogo. A missão do jogador era manejar o Qix, uma espécie de giz eletrônico, de modo a construir áreas poligonais que restringissem os movimentos do Styx e terminassem por aprisioná-lo. Um desafio terrível, tanto que na primeira vez que joguei, fiz ZERO pontos, verdadeiro vexame.

Com o orgulho ferido, dediquei-me a jogar Qix com uma intensidade tal que me transformei num maníaco, literalmente um viciado. Na época, trabalhava como analista na Marinha. Saía do trabalho, passava na namorada, dava um alô e ia direto para o Qix. Treinei tanto que em setembro de 83 batí o recorde carioca, numa máquina ao lado de casa, em Ipanema. A coisa estava tão entranhada no meu cérebro que eu via os Qix, Styx e "sparks" (fagulhas assassinas que destruíam o seu Qix, se você desse bobeira) em todo o meu campo de visão, o dia inteiro, onde quer que eu estivesse: na cozinha, no chuveiro ou no escritório. Nunca vivenciei um episódio tão obsessivo de suprema concentração mental, no caso, dedicada a uma finalidade totalmente infecunda. Mas valeu a experiência, pois hoje sei bem o que é.

No mesmo ano, derrubei o grande mestre brasileiro, um office-boy metaleiro tarado de meia-idade, que detinha o recorde brasileiro, numa máquina na Praça da República, em São Paulo. Mas a grande glória foi em 1986, quando fui pela primeira vez a Nova York e conhecí o recordista mundial, numa loja perto do Times Square. Era o George, um aposentado simpático e de barba branca, que jogava numa máquina que tinha o último release da ROM do Qix. Eu, super nervoso, mostrei a ele o meu histórico e marcamos um duelo. Batí o George e me tornei o recordista mundial, com 777.580 pontos e nível de multiplicadores de "vezes 10" ainda na primeira das três vidas do Qix. O embate se deu com toda a platéia fumando charutos mata-rato, inclusive eu, não fumante.

Depois da vitória, com a qual fiquei três horas e meia com uma só ficha, a galera comemorou no McDonald's ali ao lado. Éramos quatro ou cinco marmanjos inhaquentos, cabelos desgrenhados, com olheiras e fedendo a fumaça, comendo os hot-fudge sundaes pagos pelo George. Quando comecei a trabalhar na Cobra, em 87, aposentei-me dos Arcades.

Em 1990, a Taito vendeu uma versão do Qix para PC. Foi o primeiro software que comprei. Mas era uma versão modificada e, segundo eles, "melhorada". Resultado: perdeu o encanto do original e acabei abandonando o disquete que, a essa hora, deve estar cheio de bad blocks em algum canto das minhas gavetas.

Foi com grande surpresa que recebi via "Galera do Inside" uma mensagem do veterano analista Marco Paganini <Paganini@Pobox.Com> informando a existência de um tal de MAME, Multi Arcade Machine Emulator, um emulador freeware que roda esses jogos em suas versões tradicionais, pois executa o legítimo código ROM dos programas, mantendo em alguns casos 100% dos sons e gráficos originais. O programa pode ser encontrado em <www.vds.com.au/~kingey/mame/main.htm> com o nome MAME216B.ZIP, ocupando menos de 380 kb. Os autores do MAME são dois feras italianos: Nicola Salmoria <MC6489@mclink.it> e Mirko Buffoni <mix@lim.dsi.unimi.it>

Quanto os códigos ROM, isso já é outra história, pois eles estão sob copyright. Mas o pessoal não está nem aí para isso, pois toneladas de ROM's estão disponíveis gratuitamente (por enquanto) na Web, em <www.vu.union.edu/~peekb/arcade/index.html>, graças a inúmeros contribuidores abnegados que resgataram os códigos genuínos. A lista é impressionante, mas se você jogou nos Arcades do passado, pode estar certo que o seu jogo está lá, de graça. Aproveite enquanto tem, pois o acervo é realmente uma raridade: 1942, Amidar, Anteater, Arabian, Asteroids, Asteroids Deluxe, Bagman, Battlezone, Black Widow, Blaster, Bomb Jack, Bubbles, Burger Time, Carnival, Centipede, Commando, Congo Bongo, Crazy Climber, Crazy Kong, Crush Roller, Crystal Castles, Defender, Diamond Run, Dig Dug - Atari, Dig Dug - Namco, Donkey Kong, Donkey Kong Jr., Donkey Kong 3, Elevator Action - Bootleg, Elevator Action - Original, Fantasy, Frogger, Galaga, Galaga Bootleg, Galaxian, Ghosts 'n Goblins, Gorf, Gravitar, Green Beret, Gyruss, Gingateikoku No Gyakushu, Jr. Pacman, Joust, Jump Bug, Jungle King, Kangaroo, Kick Raider, Krull, Kung Fu Master, Lady Bug, Lost Tomb, Lunar Lander, Lunar Rescue, Mappy, Mario Bros., Mad Planets, Millipede, Missile Command, Moon Cresta, Moon Patrol, Moon Quasar, Mouse Trap, Mr. Do!, Mr. Do's Castle, Mr. Do! Run Run, Mr. Do! Wild Ride, Ms Pac Man (bootleg), Mysterious Stone, Nibbler, Naughty Boy, Pac Man, Pengo, Pepper II, Phoenix, Pisces, Pleiads, Pooyan, Popeye - Bootleg, Qix, Q*Bert, Q*Bert Qubes, Rally X, Red Baron, Rescue, Robotron, Scramble, Sea Wolf II, Seicross, Sinistar, Space Duel, Space Firebird, Space Invaders, Space Panic, Space Zap, Splat, Starforce, Stargate (Defender II), Super Cobra, Super PacMan, Tempest, The Adventures of Robby, The End, Three Stooges, Time Pilot, Turtles, Tutankham, Vanguard, Venture, Vulgus, War of the Bugs, Warp Warp, Wizard of Wor, Yie Ar Kung Fu, e Zaxxon. São arquivinhos bem miúdos. O Qix, por exemplo, ocupa menos de 25 kb e roda deliciosamente em VESA, em sabor original, com exceção dos sons.


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