O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 349 - Escrito em: 1998-04-27 - Publicado em: 1998-05-04


O buraco é mais embaixo


Segundo o economista Paul Strassmann <paul@strassmann.com>, um dos mais renomados estudiosos do impacto das tecnologias na produtividade empresarial, o desastre informático do ano 2000 será muito maior que o esperado. O estrago total, estimado em US$ 600 bilhões para consertar todos os grandes sistemas mundiais, é ainda maior que os custos combinados das três maiores tragédias naturais desta década: os terremotos de Kobe e Los Angeles, e o furacão Andrew. No entanto, mesmo esta escabrosa cifra seria café pequeno, pois não contempla a trabalheira que advirá da virada do milênio, nem o custo para pôr mãos à obra. Segundo Paul, as grandes corporações, agências governamentais e os serviços de consultoria em tecnologia de informação estão subestimando a quantidade de trabalho necessário para reparar os sistemas, bem como as conseqüências financeiras dessa faina.

Em primeiro lugar, estão sub-dimensionando o escopo do problema. Os exercícios de preparação para o Y2K (Year 2 K - com "K" significando kilo = mil) estão se concentrando em áreas sob a égide dos departamentos de sistemas, ou seja, programas financeiros, de contabilidade, contas a pagar e a receber, estoques, sistemas relacionados ao cliente, e outros. No entanto, a maior encrenca será causada por falhas em sistemas fora deste domínio: satélites de posicionamento global (GPS), sistemas de segurança predial, acompanhamento logístico e similares.

Estão negligenciando também os programas de teste. Nos grandes sistemas, os programas de teste podem conter até 30% do total de código escrito. São usados para testar o sistemão, quando se supõe que ele esteja pronto. Produz-se uma grande massa de dados fictícios e roda-se o teste. Depois faz-se o mesmo com uma massa de dados reais. Quando o sistema mastiga e engole bem ambas as massas, ele é dado como pronto para rodar em produção.

E o tal mito das "linhas de código"? Para estimar os custos de se alterar este ou aquele programa, os caras fazem as contas baseados no número de linhas de código fonte.

No entanto, este critério é bastante nebuloso. Às vezes é preciso escrever 200 ou 450 linhas de código em linguagem Assembler para definir uma função de média complexidade, que poderia ser escrita em SmallTalk com apenas 15 ou 40 linhas. Para engrossar ainda mais o caldo, as análises do impacto de se alterar software corporativo levam em conta que sempre existirão ferramentas espertas (sistemas de correção e diagnóstico) para reparar programas escritos em Cobol e C, linguagens mais utilizadas, mas que significam apenas 45% dos dialetos empregados. Não se leva tanto em consideração o mundo de aplicações escritas em Pascal, PL/1, Ada, Mumps, RPG, Bliss, Basic, Fortran, Jovial e em centenas de linguagens Assembler específicas para esta ou aquela plataforma de hardware. O custo de sanar os problemas de Y2K nesses programas sempre dependerá das ferramentas e do pessoal habilitado a fazê-lo.

A turma está se concentrando em arrumar a lógica dos programas, mas quantos estarão levando em conta o brutal esforço de reparar e reconverter os bancos de dados para que contenham a informação de "ano" no novo formato de quatro dígitos? Esta reconversão tem sérias implicações de tempo de processamento e de espaço em disco. Outro aspecto fundamental é que grande parte das empresas está dando atenção ao teste individual de programas e aplicações, sem levar tanto em consideração a interoperabilidade destes módulos com relação a outros sistemas, sejam eles ou não da casa.

E quando entrarem em cena os advogados, aí sim a cobra vai fumar. A falta de atenção a um problema conhecido pode ser encarada como negligência. Quando começar a inevitável epidemia mundial de falhas em programas, por ocasião da assustadora virada, os departamentos jurídicos vão certamente aproveitar a oportunidade de ouro e tentarão aplicar taxas exorbitantes, por danos e lucros cessantes. Ações legais vão pipocar uma atrás da outra, formando uma cascata de processos e exigências, um querendo culpar o outro pelos problemas. Diante desse caos, imagine a leitora a grana que será gasta com brigas judiciais.

Muitas das companhias que se propõem a oferecer soluções curativas ou preventivas para a síndrome do ano 2000 não estão dando garantia de seus produtos e serviços, além de estarem evitando o crivo de auditores independentes. Estimativas de orçamento para estas soluções capengas nem sequer se aproximam da realidade, pois não levam em conta o gasto jurídico que surgirá quando a coisa degringolar.

O pessoal das estimativas andou esquecendo também dos custos conseqüenciais. Na correria para cumprir os prazos de conversão do Y2K, os executivos da área de sistemas podem estar muitas vezes fazendo importantes concessões que certamente custarão muito dinheiro mais adiante: descuidando-se da manutenção essencial dos sistemas, comprometendo a segurança das informações através da terceirização emergencial dos serviços de conversão e alterando as matrizes salariais ao pagarem pequenas fortunas a especialistas em tarefas relacionadas ao ano 2000.

Paul Strassmann avalia que, só nos EUA, deve-se gastar uns US$ 24 bilhões, decorrentes do reparo dos cerca de 40 milhões de programetos e bacalhaus escritos por programadores casuais em workstations e servidores locais. Conversão de programas oficiais, mais US$ 70 bilhões. Para reparar e converter bancos de dados, US$ 60 bilhões, seguidos de US$ 10 bilhões para as bibliotecas de teste e mais US$ 10 bilhões para trabalho curativo depois da virada.

Some-se US$ 20 bilhões em hardware para teste, processamento paralelo e upgrades feitos em decorrência da lentidão com que rodarão as aplicações convertidas. Um chute final equivalente a mais US$ 100 bilhões corresponderia às brigas judiciais que decerto existirão. Tudo isso, só nos EUA, daria um total de US$ 294 bilhões, quase a metade dos US$ 600 bilhões que estimaram para o mundo inteiro.

Com os EUA representando apenas cerca de 16% do problema mundial a ser resolvido, dá para fazer uma regrinha de três e chegar ao grande número. Tão assustador que deixo como dever de casa para a leitora.


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