O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 377 - Escrito em: 1998-11-11 - Publicado em: 1998-11-16


Microsoft dá seu aval ao Linux

DOCUMENTOS INTERNOS DA MS VAZAM REVELANDO PAVOR
DA EMPRESA DIANTE DO CONCEITO DE SOFTWARE ABERTO


Quando alguém enriquece demais ou alguma empresa começa a crescer desmesuradamente, o pessoal já começa a secar a pimenteira e fica apostando em quanto tempo vai durar o tal esplendor. Este climinha de querer ver o circo pegar fogo já existe há tempos com relação à Microsoft e ao seu dono, o Bill(ionário) Gates. A empresa vem abocanhando o mercado de forma cada vez mais agressiva e parecia que nada poderia se opor ao seu avanço. Na hora de brigar com a Netscape, por exemplo, a Microsoft decidiu oferecer seu próprio Web-browser de graça, num ataque que muitos classificaram de golpe baixo. Mas o destino dá lá suas voltas e agora são justamente os softwares gratuitos que estão criando problemas para a Microsoft.wpe1.jpg (25335 bytes)

No final de outubro passado, Eric S. Raymond <esr@thyrsus.com> recebeu via e-mail, de três fontes distintas, um documento interno da Microsoft, datado de 11 de agosto e supostamente confidencial, mostrando que a empresa está terrivelmente preocupada com a filosofia OSS, Open Source Software <www.opensource.org>, uma metodologia de desenvolvimento em que o código-fonte (source code) dos programas é aberto. Apenas para esclarecer, o código-fonte de um software é como um texto escrito num idioma lógico que pode ser entendido por humanos, podendo ser documentado, comentado e alterado. Após um processo chamado compilação, o fonte é transformado em executável, ou seja, código de máquina: seqüências de "zeros" e "uns" que só podem ser entendidas pela CPU do computador. Os softwares que atualmente compramos nas lojas estão em formato executável. Em contrapartida, se você tiver o fonte dum programa e conhecer a linguagem, poderá fazer o que quiser com ele.

No caso do Linux, trata-se de software gratuito e de ótima qualidade, constituindo uma ameaça mortal à monstruosa e complicada estrutura em que se baseia a Microsoft. E mais, uma vez que o fonte do Linux é publicado, qualquer gato pingado pode estudar e entender o funcionamento do software e, se for um elemento safo, poderá até sugerir melhoramentos e debugar o código. Essa abordagem escancarada confere aos softwares OSS uma confiabilidade brutal, porque os feras no assunto sabem exatamente com o quê estão lidando e botam a mão no fogo pelo produto, já que eles mesmos de alguma forma meteram o bedelho nas suas entranhas. Em resumo, o Linux é um alvo demasiado difuso, não podendo ser destruído pelas táticas FUD (vide Box 1) usuais adotadas pela Microsoft para desintegrar seus oponentes comerciais.

Sendo um dos maiores arautos do conceito OSS, o próprio Eric foi citado nesse documento microsoftiano e passou a divulgá-lo na imprensa e na Web, tendo incluindo diversas anotações e batizando o dito cujo de "Documento Halloween" <www.opensource.org/halloween.html> (versões em espanhol também disponíveis no site). Eric interpreta o memorando como a continuação de um habitual padrão de práticas destrutivas e predatórias adotadas pela Microsoft, já há tempos. Ele interpretou o tema geral do memorando como sendo: "O conceito OSS é realmente muito bom e nós temos que destrui-lo". Pelo que se vê, o homem ficou tiririca da vida com o Sr. Gates e seu império digital, como claramente transparece em uma zangada lamentação que escreveu, disponível em <www.opensource.org/halloween-rant.html>. Para conhecer mais sobre os princípios do OSS, é recomendável ler dois dos excelentes trabalhos do Eric: "The Cathedral and the Bazaar" e "Homesteading the Noosphere", ambos esperando por você em <http://tuxedo.org/~esr/writings>. E se tiver interesse pela filosofia underground digital, sugiro que leia outro texto magistral seu: "Como se tornar um hacker", gentilmente traduzido por Rafael Caetano dos Santos <rcaetano@linux.ime.usp.br> e disponível em <www.linux.ime.usp.br/~rcaetano/docs/hacker-howto-pt.html>.

A velocidade com que o documento Halloween se espalhou na Internet foi algo impressionante. Poucos dias depois, um outro documento, o Halloween 2, evidenciava a mesma preocupação da companhia, mas desta vez focada no sistema operacional Linux <www.li.org> (vide Box 3), uma versão gratuita, estável e robusta do tradicional Unix. Além do Linux, outro software grátis foi apontado como ameaça direta ao negócio da Microsoft: o servidor Web mais popular do mundo, o Apache <www.apache.org>.

Os documentos Halloween foram escritos por dois gerentes de produto do grupo de engenharia da Microsoft: Vinod Valloppillil <vinodv@microsoft.com> e Josh Cohen <joshco@microsoft.com>. A autenticidade da peça foi comprovada pela própria empresa, como se pode ver em <www.microsoft.com/ntserver/highlights/editorletter.asp>. No entanto, a MS menosprezou a importância dos memos, afirmando que "são apenas notas de engenheiros cujo trabalho é analisar modelos de negócios, produzindo material útil para gerar diálogo interno dentro da Microsoft". Ainda segundo a companhia, "não é incumbência desses dois profissionais traçar estratégias nem estabelecer planos de ação". Mas Eric Raymond novamente rechaçou os argumentos do gigante, afirmando que "o Halloween 1 foi escrito por um engenheiro graduado, com contribuições, endossos e revisões feitas por dois gerentes de projeto, pelo vice-presidente senior responsável pelo desenvolvimento do Windows NT e por dois membros do Comitê Executivo, composto por oito integrantes, a cúpula da MS, respondendo direto ao BillG".

O fato é que os dois cidadãos, sem querer, acabaram se transformando em heróis da causa Linux, pois produziram um notável testemunho da excelência do referido software e do sucesso da filosofia OSS. Provavelmente o honorável Linus Torvalds <http://sagan.earthspace.net/~esr/faqs/linus>, criador do Linux, nunca imaginaria que tal importante propaganda a seu favor iria um dia ser veiculada justamente pela Pequena-Mole. Provavelmente os historiadores do futuro irão reverenciar a memória destes dois engenheiros da Microsoft que, neste exato momento, devem estar sofrendo medonhas sessões de tortura chinesa em algum calabouço lúgubre nos subterrâneos das instalações da Microsoft, lá em Redmond.

Analisando o teor dos escritos chega-se à conclusão que a intenção da Microsoft era tornar os protocolos abertos cada vez mais dependentes dos sistemas operacionais produzidos pela empresa, atrelando a comunidade a eles pelo prestígio e pelo marketing pesado que são apanágio da companhia. É simples, basta fingir que se adota um protocolo grátis e começar a inserir extensões e "melhoramentos". Muito em breve as versões mais modernas serão incompatíveis com as versões gratuitas originais. (vide Box 2)

É natural que a Microsoft se péle de medo da iniciativa OSS. Segundo o memorando, é assombrosa a habilidade dos adeptos da filosofia OSS em coletar e coordenar esforços coletivos de milhares de bons cérebros pela Internet afora, superando de bordoada os hercúleos e caríssimos esforços de evangelização universal dispendidos pela Microsoft.

Alguns analistas acreditam que, ao invés de tentar subverter o Linux, a Microsoft deveria abrir o código-fonte do Windows NT, de modo que o somatório mundial de esforços da comunidade de programadores na Internet pudesse consertar os bugs mais rapidamente. Mas é quase certo que o Tio Gates não agirá assim, o que poderá eventualmente dar início à derrocada de seu império.

No entanto, ainda há quem acredite que os documentos Halloween teriam sido deliberadamente divulgados pela própria Microsoft numa genial jogada de marketing visando fortalecer sua defesa diante do processo anti-truste em que está envolvida. É uma teoria até bem plausível, pois solidificando a imagem do Linux como um competidor real e ameaçador, estaria desconfigurado o monopólio da companhia, que é justamente a acusação mais grave levantada contra ela.


FUD

A tática FUD (Fear, Uncertainty, Doubt = Medo, Incerteza, Dúvida) é uma técnica de marketing que você pode usar quando um competidor lança um produto que é ao mesmo tempo melhor e mais barato que o seu, ou seja, quando seu produto já não mais é competitivo. Incapaz de responder com fatos concretos, você passa a divulgar declarações assustadoras através de canais de fofoca, buscando lançar um véu de desconfiança sobre as ofertas de seus oponentes e fazendo com que as pessoas pensem duas vezes antes optar pela concorrência.

Estes métodos costumam ser usados por empresas dominantes num dado mercado e seu discurso geralmente é: "Abra o olho. Pode ser perigoso trilhar esse novo caminho proposto por eles. Continue conosco e fique junto com a massa. Nossa nova versão será muito melhor que a deles, pode crer".

Em informática, a tática FUD foi largamente usada pela IBM nos anos 70. O IBM PC era muito mais caro que os concorrentes na época, apesar de ser bem mais lento e menos poderoso. Mas em função da marca IBM, manteve-se por um bom tempo na crista da onda. Essa história, no entanto, não configurou um emprego deliberado da tática FUD. Foi a Microsoft que, após adotar a tática da IBM, começou a explorar a técnica com maestria e, mais tarde, usou-a contra a própria Big Blue, quando da rixa entre Windows e OS/2.

Um ótimo texto sobre FUD foi escrito por Eric Lee Green <eric@linux-hw.com> e pode ser obtido em <www.linux-hw.com/~eric/fud101.html>


A GUERRA DOS PROTOCOLOS

Um dos conceitos mais interessantes contidos nos memos Halloween é o que diz respeito à transfiguração de protocolos (decommoditizing protocols), a arma sugerida contra o crescimento do software grátis. Por protocolos entende-se padrões, formatos de arquivos e normas técnicas, ou seja, qualquer coisa que permita que módulos heterogêneos de software possam trabalhar em conjunto.

Para transfigurar um protocolo, pode-se optar por: torná-lo cada vez mais complexo, especificá-lo de forma incompleta, documentá-lo mal, mudá-lo rapidamente, evocar propriedade intelectual ou direitos autorais, e adicionar valor, ou seja, fazer com que o produto resolva mais problemas, com melhor desempenho. No caso de um software, o exemplo típico é um programeto que em sua primeira versão é um simples software de fax, mas que lá pela oitava versão já tem planilha embutida, edita texto, roda OCR (optical character recognition) e navega na Web.

Como exemplos de protocolos não-transfigurados temos o TCP/IP e o HTTP, figurinhas fáceis na Internet. Não são protocolos perfeitos, é claro, mas o fato de estarem liberados para a comunidade serviu para que todos os adotassem. Eles são simples, bem documentados, inteiramente especificados, sem opções nem variantes. São estáveis, robustos, maduros e não estão sujeitos a patentes, copyrights, nem marcas registradas.

Se quisermos exemplos de protocolos proprietários, não precisamos ir longe: o próprio padrão Microsoft Win32 API e as famosas DLL's estão bem aqui debaixo do nosso nariz. São complexos, incompletamente especificados, mal documentados e sujeitos a rápidas alterações. Um exemplo de um protocolo proprietário que está dando certo é o padrão RealAudio, bastante popular no ambiente da grande rede.

Na década de 80 tentou-se fechar um Unix proprietário, de olho no mercado dos PC's. Acontece que cada fabricante quis colocar um "plus" na sua versão, afastando-a do padrão. Essa confusão perdurou até que apareceu o Linux, invadindo a plataforma PC com sua esmagadora compatibilidade e sua notável aderência ao padrão.

A despeito do sucesso dos protocolos comerciais, o futuro dos protocolos abertos é promissor. O usuário e o especialista já estão de saco cheio com a desnecessária complexidade dos sistemas, a falta de consistência, a rotatividade das versões, a má documentação das estruturas internas e a falta de escolha que as versões comerciais oferecem. Isso dá aos desenvolvedores de software gratuito uma grande vantagem.


GNU

O Projeto GNU <www.gnu.org> começou em 1984 a desenvolver um sistema operacional completo gratuito baseado no padrão Unix. Variantes do sistema GNU, utilizando Linux como kernel (núcleo) estão na boca do povo, e deveriam ser chamados GNU/Linux, mas acabaram adotando o próprio nome Linux simplesmente. O primeiro teste do sistema foi feito em agosto de 1996. A Free Software Foundation é uma entidade sem fins lucrativos que levanta fundos para o trabalho no Projeto GNU.


[ Voltar ]