O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 424 - Escrito em: 1999-10-06 - Publicado em: 1999-10-11


Vingança anônima


Site inovador oferece opção brilhante para antiga questão

Na semana passada solicitei que me enviassem sugestões sobre como implementar uma vingança de forma anônima, fosse por Internet ou não. Agradeço de coração a todas as leitoras e leitores que me escreveram, mas confesso que fiquei surpreso com a criatividade do pessoal. Aprendi tantas técnicas terríveis que jamais serei o mesmo depois disso. Pena que, infelizmente, a maioria das sugestões recebidas seja impublicável. Quando pedi que escrevessem já tinha algo em mente, um site bastante fora do comum que me foi indicado por um amigo. Apenas um único leitor, o Juliano P. Buarque <jbuarque@easynet.com.br>, declarou já ter conhecimento do tal site, sobre o qual falarei agora.

Imagine que alguém aprontou uma com você e que tenha sido de má fé. Seu impulso natural é vingar-se do desafeto. Diz-se por ai que a vingança é doce, e pode ser mesmo. Imagine a cena: sua vítima recebendo em casa pelo correio um pacotinho de papelão marrom enviado dos EUA. Imediatamente a curiosidade vai crescer e a criatura decerto vai abrir a inesperada caixinha com ansiedade. Dentro dela encontrará um embrulho bem feito com papel crepe colorido, contendo em seu interior, selado num saco de celofane, certa quantidade de... bem, sabe quando a leitora está a andar pelas calçadas da cidade e inadvertidamente pisa numa armadilha deixada por um cão no calçamento? Sim, é isso mesmo. Seu desafeto recebe via postal um pequeno punhado dessa matéria fétida canina.

O site <www.dogdoo.com> providencia a entrega anônima do material para qualquer endereço no mundo. A encomenda é chamada PooPoo Package e o usuário pode escolher o texto que aparecerá no cartão que acompanhará o pacote. Note-se que o referido cartão exigirá que o destinatário necessariamente tenha que manusear a coisa toda, dando um toque especial às intenções de vendeta. Você pode também escolher a cor do papel crepe que envolverá o tolete. Sua vingança pode se manifestar em três tamanhos à sua escolha. O site oferece também pacotes promocionais especiais para datas festivas e dias santos. As encomendas podem ser pagar via cartão de crédito, cheque ou ordem de pagamento.

A modalidade mais em conta chama-se Econo-Poop. É compacta e tubular, custando apenas US$ 13. A segunda categoria é o PooPoo, quantidade bem maior produzida por um cão mais talentoso e custando US$ 19. Mas o topo de linha é chamado "PooPoo Grande", pelo preço de US$ 25, um colosso. Há também promoções incluindo uma camiseta, sem dúvida um presente de inegável bom gosto.

Pelo que se vê, a capacidade do pessoal em inventar loucuras e ganhar grana fácil via Rede é virtualmente inesgotável. A equipe do DogDoo.com demonstra uma seriedade inquestionável na abordagem empresarial desta incomum iniciativa. Em primeiro lugar, eles não mantêm informações em seus cadastros, elminando após 24 horas qualquer dado que possa ligar o remetente ao destinatário, preservando apenas o registro financeiro da transação. A privacidade do cliente em primeiro lugar, é claro. A demanda pelo serviço tem sido bem grande, evidenciando o sucesso do site.

Mas e o embrulhinho? É fedorento? Dizem os especialistas do DogDoo.com que só há mau cheiro caso o pacote fique, por exemplo, dentro de um carro fechado ao sol por mais de duas horas, caso contrário seria relativamente inodoro. (Este "relativamente" é o que me preocupa.)

Alguns usuários, preocupados com a origem do material despachado, andaram aventando a possibilidade de ele ser obtido de cães maltratados e super-alimentados de modo a produzirem mais. Como resposta, os responsáveis pelo site apresentam os três animais responsáveis pelo setor de produção: Buster, Jesse e Teddy, todos muito bem tratados e com um amplo quintal à sua disposição para brincadeiras e exercícios. Todos dormem bem protegidos, num quarto, sendo que o Teddy dorme na cama junto com o dono do pedaço. Duas vezes por dia são alimentados de acordo com recomendações do veterinário. Por ser mais idoso, Teddy recebe ração especial, de mais fácil digestão. Todos recebem poderosos suplementos vitamínicos.

O perigo de contágio é afastado pelo empacotamento judicioso em celofane, material transparente e leve. Para se candidatar a se contaminar com o presente recebido, o indivíduo teria que abrir o saquinho selado e encostar diretamente no desagradável conteúdo, levando os dedos até a boca, o que é altamente improvável de acontecer. Mesmo assim, a equipe do DogDoo.com é tão profissional, que conta até com essa remota possibilidade, tratando os cães mensalmente com os medicamentos Interceptor e Frontline (não confundir com o FrontPage da Microsoft). Apesar de testados duas vezes a cada ano por parasitas, os cãezinhos nunca apresentaram resultado positivo.

Portanto, se a leitora um dia encontrar pela Web um site inusitado e fora do comum como este, não hesite em enviar a dica para esta coluna, pois estamos aqui para informar, para perfumar sua vida e, quem sabe, tornar sua vingança mais doce.


Esta carta motivou um leitor a escrever uma carta para a redação. Tanto a carta quanto a resposta foram publicadas em "Prezado Globo", em 1999-10-18:

A carta:

Registro com pesar a publicação, no "caderno de informática" de 11/10/99, na coluna C@T ("iniciais" de Carlos Alberto Teixeira, que a assina), do texto "vingança anônima". Ali, seu autor, depois de ter solicitado, uma semana antes, que os leitores lhe enviassem sugestões sobre como "implementar uma vingança de forma anônima" - procedimento que, por si só, já não permite que se caracterize como de boa índole quem o adota - transcreve uma das respostas que recebeu e divulga o endereço eletrônico do "site" de uma empresa norte-americana, especializada em remeter anonimamente, para qualquer parte do mundo, nada menos que excrementos de animais, cuidadosamente embalados para presente. E tudo descrito nos mínimos detalhes, ao longo de 120 linhas, em que é exaltado o "profissionalismo" de tal empresa.

Desnecessário é ressaltar os resultados que poderão advir da veiculação de tal matéria, pela gande penetração quer de "o globo", quer, presumivelmente, da coluna citada, em particular entre adolescentes - como sugere a ilustração sobreposta ao texto - muitos dos quais usuários de informática e ainda imaturos para avaliarem adequadamente o quanto essa ode à banalização da vingança e o escatológico método proposto para tal podem influenciar negativamente suas personalidades em formação. Numa época em que se debatem mundialmente os já alarmantes malefícios sociais advindos da divulgação exacerbada, pela mídia como um todo, de impudicidade, anarquia sexual, violência, dissolução de costumes e outros temas deletérios, é desanimador termos nossos lares invadidos por uma peça de propaganda tão desprezível.

Mas resta a esperança de que, no "painel do leitor", a autocrítica de Luiz Garcia registre algo a esse respeito, ainda que "a posteriori", já que, "a priori", isto é, depurando antecipadamente a informação ofertada ao leitor, só se houvéssemos atingido um nível elevado de educação e civilidade, que nos permitisse adotar uma adequada postura de equilíbrio entre a opressora censura, felizmente banida, e o irresponsável "liberou geral". Mas isso, a persistirem atitudes como a que aqui expusemos, lamentavelmente talvez só advenha para os pósteros dos pósteros de nossos pósteros.

Gil Cordeiro Dias Ferreira - Oficial de Marinha na reserva e administrador de empresas - e-mail: flaviab@domain.com.br


A resposta:

Caro Gil.

Li sua carta com atenção e reconheço que eu mesmo poderia tê-la escrito num dia nublado. Seus pontos de vista batem com os meus em quase todos os aspectos. Todavia, a coluna C@T, como você bem sabe, traz para "a leitora" o lado inusitado e pouco conhecido da Internet e de suas tecnologias acessórias. É um mundo novo e fenômenos sociais inéditos vão ocorrendo diariamente.

Mas é preciso sublinhar alguns pontos. Reportar ao público casos de pedofilia cibernética não quer dizer que se está fazendo ode a tal prática. Informar os leitores sobre uso de criptografia avançada por traficantes de drogas também não implica que se está exaltando este comércio. A maioria das técnicas de vingança anônima que recebi durante a semana, em dezenas de mensagens via email, são coisas tão pesadas que, como você pode ler no texto, nem cogitei em escrever sobre elas. Obtive significativo feedback positivo com relação ao texto sobre o DogDoo.com, de muita gente bem humorada que se divertiu com a criatividade do site e mesmo com a descrição detalhada do esquema.

Portanto, não será por causa desse texto que o tecido ético e moral brasileiro se romperá, e nem teremos no futuro uma população inteira de cidadãos degenerados trocando por via postal embrulhinhos contendo sujeira canina. Compreendo perfeitamente e até concordo com sua indignação generalizada com o que se publica na mídia, mas nesse caso você pegou pesado à toa.

Deixo-lhe então um afago fraternal e transmito-lhe minha fervorosa esperança de que encontre em breve uma outra gota d'água mais consistente para dar vazão à sua justificada revolta, num escopo mais amplo.

- c.a.t.


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