O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 426 - Escrito em: 1999-10-20 - Publicado em: 1999-10-25


Rima perigosa


Pesadelos do nosso querido Bill Gates devem ser tenebrosos

Toda hora vemos gente falando mal do Tio Bill e da Microsoft. Vejo o pessoal esbravejando, muitas vezes com toda razão, mas penso cá com meus botões: tem coisa melhor para se usar? Bem, pode até ter, mas é tudo bem confortável, a leitora há de convir. Ademais, pelo menos por enquanto, o que o resto da turma usa mesmo é Microsoft. É possível ficar fora da corrente, mas dá trabalho. Certa vez um coroa americano amigo meu, afeito aos bits e bytes, ensinou-me que a melhor coisa é se manter na segunda ou na terceira onda dos avanços técnicos, pois tanto hardware quanto software são mais baratos aí do que na tecnologia de ponta. Já contei essa historinha aqui: esse meu amigo toca até hoje uma empresa de projetos em arquitetura usando AutoCAD release 9 (o release atual é o 14) rodando em MS-DOS 3.3. Ele compra micros usados e plotters antigos a preço de pão francês e fatura aos tubos com os serviços que presta. Encontra por ai uns Pentiums velhos de segunda mão, paga em cash e vai entregando-os para sua equipe, que a cada upgrade desses dá saltos mortais de tanta alegria, diante da velocidade espantosa com que esses softwares antigos rodam em máquinas já obsoletas. Escute o velho, leitora, e seja feliz.

Enquanto isso, tenho assistido às duras investidas dos colegas da ZDNet <www.zdnet.com> contra a Pequena Mole e seu bilionário mentor. Uma das mais recentes foi feita por Lisa M. Bowman <lisa_bowman@zd.com>, da ZDNN, que mostra como a Microsoft está jogando duro com o DOJ (Departamento de Justiça americano), fazendo um forte lobby no congresso no sentido de apertar o orçamento da agência para o próximo exercício.

No momento, a conhecida ação anti-truste que o DOJ move contra a MS está nas mãos do juiz Thomas Penfield Jackson, mas nesse meio tempo a empresa, junto com algumas associadas, está pedindo ao congresso que aloque ao DOJ apenas US$ 105,2 milhões para o ano fiscal de 2000. A administração Clinton propõe US$ 114,3 milhões, enquanto o Senado americano quer alocar US$ 112,3 milhões para a agência. Por outro lado, todas as propostas de gastos do DOJ são maiores que o orçamento de 1999. Essa pressão de lobby que a MS faz contra o departamento não vai contra as Leis americanas. Mas constitui manobra de invejável audácia, peitar o governo desse jeito. Nada como ter muita bala na agulha. Não é à toa que a Microsoft é o que é.

Certamente não dá para se fazer comparações entre EUA e Brasil, com respeito ao nível de seriedade política, transparência e pressão popular sobre os legisladores. Estamos atrasados décadas. Mas imaginem só: tudo bem que não seja ilegal essa tática pesada da Microsoft, mas deve ser bem desconfortável para o povão de lá constatar que, se o seu Poder Judiciário resolver atacar uma grande companhia, poderá ver seu orçamento afetado.

Lisa diz ainda que, segundo o pessoal da Microsoft, o DOJ andou tomando decisões rápidas demais a favor de competidores da empresa, além de enviar emissários para o exterior encorajando governos estrangeiros a mover ações contra a companhia. Por sua vez, a turma do DOJ não está levando muita fé que a MS consiga lograr seu intento. A briga continua feia, mas já está quase terminando. Vamos ver no que dá.

Enquanto isso, Jesse Berst, prestigiado Editor da ZDNet AnchorDesk, joga no ventilador mais um pouco do conteúdo dos adoráveis pacotinhos postais do <www.dogdoo.com>. Apesar de declarar que não é analista financeiro, este renomado colega aventa a possibilidade de haver, muito em breve, uma queda considerável nas ações da Microsoft. Detalhes sobre sua teoria, até bem plausível, podem ser vistos em <www.zdnet.com/anchordesk/story/story_3825.html>. Jesse tece interessantes considerações sobre o mercado de opções e sobre as ações da MS. Aponta também o fato de que, a cada ano, os resultados financeiros da Microsoft são sempre melhores do que os esperados, lançando um véu de desconfiança sobre as práticas contábeis da companhia. No artigo, Jesse Berst é extremamente cauteloso em suas insinuações, mas informa que o Financial Accounting Standards Board americano está em vias de mudar as regras do mercado de opções, já tendo feito tentativas anteriores nesse sentido, sem sucesso. No entanto, segundo os analistas, dessa vez a coisa sai e é aí que mora o perigo para a MS. Jesse evoca o parecer da conceituada empresa londrina Smithers & Co, que declarou que a MS teria perdido mais de US$ 15 bilhões, caso as novas regras já estivessem valendo. Ela não estaria sozinha, porém. Dell e Cisco também teriam comido o pão que o diabo amassou. (Nossa! Falei em pão duas vezes aqui, acho que tô com fome.)

Sobre as possíveis irregularidades na contabilidade da MS, Jesse Berst nos revela que a Securities and Exchange Commission dos EUA já começou as investigações e que, se a gigante do software tiver que reapresentar seus resultados, estará pondo em dúvida sua integridade, a reboque de suspeitas parecidas no caso anti-truste ora em andamento. A reação do mercado pode ser violenta diante de tanta confusão.

De qualquer modo, basta olhar as fotos mais recentes do Tio Bill para a gente ver que ele está meio acabado com essa coisa toda. Também, pudera! Imagine os pesadelos do homem -- rime comigo, leitora. Um dragão chamado DOJ espetando do Bill a corcunda, e uma cobra chamada Linux mordendo-lhe bem na... deixa pra lá.


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