O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 430 - Escrito em: 1999-11-15 - Publicado em: 1999-11-22


A briga do profeta


Entre denúncias e mal-entendidos, eis um site 
que aponta certas verdades

[ Vide importante ressalva em vermelho ao final do texto ] Uma das figuras mais polêmicas da Internet brasileira, Marco Nunez já brigou com quase todo mundo. Há pouco mais de um ano enviou-me um email com um anexo bem esquisito. Este arquivo tinha um nome longo e muito estranho, mas como havia um arquivo ".txt" no meio do string, dei uma de otário e cometi o erro imperdoável de dar o duplo clique. Todos os meus arquivos começaram a ser deletados e só consegui interromper o processo porque desliguei o micro. Foi uma das mais duras lições que tomei: desconfiar de todo arquivo anexado a uma mensagem de correio eletrônico.

Ex-policial e hábil técnico de eletrônica, Marco Nunez dedicou-se de corpo e alma a encontrar buracos no DOS e no Windows e, de fato, achou coisas terríveis. Está tudo disponível na página <http://pagina.de/taldowin>, que aponta atualmente para um endereço no Tripod. Navegar o site completo é tarefa de deixar qualquer um meio zonzo, pois as páginas são não-lineares, abusam de fontes, cores, formatos e jogam o internauta de um lado para o outro com links muitas vezes caóticos e repetitivos. Mas, inegavelmente, o site oferece ensinamentos surpreendentes para quem tiver paciência de vasculhá-lo todo. Tem muito furo de software, denúncia, confusão e revolta. Em todos os meus anos de Internet, nunca encontrei uma criatura digital tão fora do comum quanto esse magistral fuçador.

Tido por alguns como louco, encrenqueiro e paranóico, Marco Nunez se diz perseguido por certas empresas, mas certamente deixa sua marca no ramo brasileiro da Rede. Escreveu um livro em formato ".doc", disponível em seu site por R$ 18. Oferece também um programa chamado Taldowin e suporte, mediante pagamento adicional. Vide a página "venda" abaixo.

Se tiver dificuldades em acessar o site, você encontrará todos os HTMLs (sem as figuras) aqui. Preparei um roteiro para a visita que você não encontrará em nenhum outro lugar e que certamente vai lhe poupar as muitas horas que gastei para varrer o site inteiro. Cada nome a seguir é um arquivo com extensão ".html", precedido do prefixo <http://members.es.tripod.de/MarcoNunez_ES/>. Segue-se o roteiro-index: abertura; index1: "morrereis por isso, todos!"; index2: mais links; analfabeto: sobre um engenheiro certificado pela MS; apres: apresentação profissional do autor; atalho: segredos sobre links e deltree; besta: Bill Gates e as faces da besta; brother: galeria do horror e bats que destroem; bug: mais falhas e Melissa; bugs98: do Win 98 e como acelerá-lo; certifica: denúncia de contaminação química; certified: resposta rude de um engenheiro; chamadas: maldição das chamadas a cobrar; cobol2: truques tenebrosos tendo Cobol como tema; crazys: fugindo do DOS; crearj: denúncia ao Crea contra o tal engenheiro; darkinvader: calúnia contra o autor; despedida: furos do Outlook; detran: penetrando em Detran, Proderj e Polícia; dicas: longa coletânea de mensagens pró e contra; dicastal: sobre o programa Taldowin; dicionário: arapucas de manuais; diploma: seu diploma de idiota; dos: protegendo arquivos e perigo dos atalhos; enganadores: briga boa com a autora de uns fascículos; explica: desrespeito à língua; farsantes: Linux, médicos e mais diversas denúncias; fbi: ira contra o FBI e foto do autor; gandhidia: à polícia civil; garotinho: mais denúncias contra calúnias; grana: grande aquisição pela Microsoft; ibm: elogios à IBM; ieti: spams de registro; info: Negroponte e mais brigas com a MS; java: ódio ao Java; listapt: elogios à lista do PT; luzes: sobre lâmpadas de filamento; macros: momento de inspiração; mail: fábrica de Melissas; manifesto: um apanhado geral; microsoft: o caso Microsoft; misterios: do UOL e do AOL; mjkids: pedofilia no UOL; modulo: denúncias contra o software CFW98 da Módulo; molp: "eu explodi a Microsoft"; mpkids: denúncia de pornografia infantil; mpp: denúncia formal contra a Microsoft; mppp: complementando a denúncia; netmed: gerenciando invasões de micros; outlook: perigos dos nomes longos; pasupata: maldições terríveis; pesadelo: pedindo ajuda; philco: furto de energia; pif: terrível segredo mortal dos pif’s; pirata: caça aos piratas e entrevista de um microsoftiano; porcristo: revolução; programa: apresentação do programa Taldowin; psion: ameaça à liderança Microsoft; rbcab: dicas e denúncias sobre Win 98; reminder: a página negra do Windows; robot: como criar uma macro robot no Windows; senhas: furto de senhas, Internet e fax de graça; sites: pichando sites do governo; soneca: não sou doido não; SPAM: denúncia de spam distribuído pela Microsoft; spy: exemplo de furos num ambiente de trabalho; taldowin: segredos malditos do Windows; talzip: para download do Taldowin; tao: sobre o livro; topsecret: um Internet Explorer reduzido; tvglobo: agradecimento à TV Globo; uol: elogio ao UOL; vendas: como comprar o livro e o programa; vendidos: por quem os sinos dobram; webfemale: armadilha de uma webmaster; e write: o assassinato do programa Write.


Reserve algumas horas, divirta-se, aprenda e proteja-se, visitando essas páginas quase folclóricas.


RESSALVA: [2000-12-05] Uma série de desdobramentos e fatos posteriores à publicação desta coluna me levaram tardiamente à conclusão de que o referido personagem, Marco Nunez, apresenta sérios desequilíbrios mentais e de caráter, sendo portanto indigno de confiança. Como pequena amostra, segue um clip de 4 de dezembro de 2000:

POLÍCIA
O falso presidente

Dono de uma página na internet, o policial civil Marco Nunez Pereira foi preso em flagrante na quinta-feira 30, no Rio de Janeiro, por transmitir mensagens eletrônicas fazendo-se passar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Os e-mails enviados a um senador recomendavam a visita à página do policial. Rastreando a correspondência, técnicos do Instituto Nacional de Criminalística de Brasília identificaram o provedor do hacker e chegaram a seu endereço, na Zona Sul do Rio.

Outro clip:

Hacker que se passou pelo presidente Fernando Henrique é preso pela PF 
Quinta-feira, 30 de Novembro de 2000 

BRUNO LOPES 
Especial para o JB Online 

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira, 30, o policial civil licenciado Marco Antonio Nunez, de 42 anos. Ele enviou seis mensagens, entre os dias 21 e 26 de novembro, para o e-mail pr@planalto.gov.br, usando como remetentente o endereço inexistente fhc@planalto.gov.br. 

Nas mensagens, onde se passava pelo presidente da república, ele pedia a divulgação de seu site, onde faz denúncias contra os programas da empresa Microsoft. 

Na sexta-feira, 24, o setor de Crimes por Computador da PF recebeu a denúncia e, três horas depois, já havia identificado o endereço de onde vinham as mensagens. 

Nunez só não foi preso antes porque a PF aguardava o mandado judicial, expedido na noite de quarta-feira. A investigação envolveu o setor de crimes por computador da Polícia Federal, o gabinete de segurança insitucional da Presidência da República e a Delegacia de Ordem Político e Social (Delops), o antigo DOPS. 

Na casa onde Nunez foi preso, a polícia também encontrou uma espingarda calibre 12 com cano cortado. O policial licenciado foi atuado em flagrante por alteração ilegal da arma, crime cuja pena varia de 2 a 4 anos. Por ser funcionário público, sua pena será aumentada pela metade. 

Depois de prestar depoimento na sede da Polícia Federal do Rio de Janeiro, ele foi levado ao IML e de lá para o Ponto Zero. Ele também irá responder por crime de falsa identidade (pena de 3 meses a 1 ano), e por uso não-autorizado de sigla governamental (2 a 6 anos). 

Montado com diversas fontes e cores, o site de Marcos Nunez é estruturado de forma não-linear, de leitura difícil. 

Uma de suas pági-nas, que faz advertências sobre falhas de segurança no sistema opera-cional Windows 98, começa com frases como: "Bill Gates não é a Besta. Aquela que não se diz o nome. A Besta é a ‘Invasão’ da enganação, pois quem sabe?, ele será vítima destes mesmos enganadores." 

Jorilson Rodrigues, subchefe do setor de Crimes por Computador da PF, não considera Marco Nunez um hacker, apenas um "usuário dedicado". 

Rodrigues considera que Nunez escreveu as mensagens se passando pelo presidente da república para chamar a atenção para as falhas de segurança da Microsoft. "Ele considera que esses programas facilitam a espionagem e comprometem a segurança nacional". 

Marco Antonio Nunez foi afastado da polícia civil por problemas de saúde. Segundo um policial federal, de natureza psiquiátrica. 


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