O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 445 - Escrito em: 2000-02-29 - Publicado em: 2000-03-13


Fique milionário via email


Proposta irrecusável de enriquecimento rápido pode chegar à sua mailbox a qualquer momento

Já tinha ouvido falar de um certo golpe via Internet, mas não tinha maiores elementos sobre ele. Agora, por sorte, meu velho amigo José Ribeiro Aires <aires@cenpes.petrobras.com.br> recebeu um email do golpista, tentando pegar mais um incauto. Portanto, posso agora lhes contar a história desde o começo.

Trata-se de mais um daqueles esquemas oferecendo fortuna rápida. Uma vez que o que mais existe no mundo é ganância e burrice, o golpe já deve ter funcionado com bastante gente. Mas não deu certo com o Aires, que não reúne nenhum desses predicados. Quem envia a mensagem inicial do embuste é um tal Dr. Aminu Tanko <tankoaminu@hotmail.com>, da cidade de Lagos, capital da Nigéria. Ele informa telefone e fax do seu escritório e do trabalho, oferecendo, num inglês muito bem escrito, uma proposta de negócio "estritamente confidencial". Em tempo, liguei e liguei, mas não consegui até agora ouvir a voz do citado nigeriano.

O doutor se diz membro de um comitê de contratos do governo federal da Nigéria, alocado ao NNPC (Nigeria National Petroleum Corporation). Ele revela que o comitê concedeu há algum tempo um contrato para uma empresa estrangeira e que este documento havia sido deliberadamente superfaturado em US$ 21,5 milhões, numa manobra reconhecidamente ilícita. Em seguida, o cavalheiro revela que seu grupo deseja agora transferir esta vultosa soma da conta do NNPC para uma conta bancária no exterior. Esta segunda conta deveria ser fornecida pela vítima, no caso, o Aires. Trocando em miudos, o bondoso Dr. Tanko iria depositar 21 e meio milhões de dólares na conta de um completo desconhecido, num ato de suprema confiança. Naturalmente, como pagamento pelo fornecimento dos dados de sua conta corrente, meu felizardo amigo iria receber 30% do total, ou seja, a bagatela de US$ 6,450 milhões. O magnânimo doutor ficaria com 60% do total e os 10% restantes cobririam as despesas decorrentes da transferência da bolada, tanto localmente na Nigéria, quanto internacionalmente.

Para dar maior credibilidade à proposta, o Dr. Tanko informou que uma transação similar foi recentemente concluída com sucesso, junto a um tal Sr. Patrice Miller, presidente de uma suposta empresa sediada em Nova York. Ele fornece endereço, telex e telefone da firma, mas me matei de ligar para lá e só dava sinal de fax direto, de modo que não consegui falar com ninguém. Ainda segundo a mensagem do generoso doutor, a citada operação anterior concluiu-se perfeitamente e todos os documentos pertinentes foram repassados ao Sr. Miller, de modo a autenticar a transação. Assim que foi realizada a transferência, o Sr. Miller apresentou ao seu banco os tais documentos e transferiu a grana para uma outra conta bancária, depois do quê desapareceu completamente de cena. Sempre lembrando que tais oportunidades aparecem raramente na vida de uma pessoa, o Dr. Tanko pediu então ao Aires que lhe enviasse o nome da sua companhia, no caso a Petrobrás, além de endereço, telefone e fax, juntamente com os dados bancários completos da conta para a qual deveria ser feita a transferência milionária.

Conforme o que diz a descarada mensagem, não importaria se a empresa do Aires contrata ou não projetos similares aos descritos no texto (que na verdade não descreve patavina de projeto algum). O importante é que ficaria parecendo que a Petrobrás estaria subcontratando um serviço da estatal nigeriana, numa prática que, ainda segundo o adorável Tankinho, seria comuníssima no ramo.

Ele ainda acalma a vítima, declarando ter fortes e confiáveis conexões no Banco Central da Nigéria, bem como no Ministério das Finanças daquele país, e que não poderia haver dúvidas de que a dinheirama seria facilmente liberada e transferida assim que se conseguisse o parceiro estrangeiro que os assistisse na operação. Assim, logo que tudo estivesse feito, os mesmos contatos do doutor dariam sumiço em todos os documentos usados, em todas as repartições do governo, de modo a garantir 100% de segurança. Ao final da missiva, o Dr. Tanko se solidarizou com o Aires dizendo que ambos são servidores civis de estatais e que não poderiam perder uma bocada dessas. Ele ainda confessa uma certa pressa, pois a qualquer momento, o governo nigeriano iria começar uma minuciosa auditoria em todas as estatais do país.

O Aires deu um pouco de corda ao espertalhão e recebeu um reply agradecendo efusivamente o retorno e pedindo que o Aires entrasse em contato diariamente por telefone de modo que ele pudesse ir passando todos os procedimentos da transação. A situação ficou nesse pé. Daqui por diante, o tal Dr. Tanko iria mandar mais uns emails pomposos e, ah que esquecimento!, iria se lembrar de que seria necessário um pagamento preliminar de meros US$ 200 para cobrir um custo residual incluído na cláusula X de uma determinação obscura do banco nigeriano. Se o Aires não fosse macaco velho, encantando com os seis e tantos megadólares, iria mandar essa irrisória quantia para o ilibado Dr. Aminu Tanko e nunca mais teria notícias dele.


Nessa segunda-feira de Carnaval, quando a leitora estiver lendo esta coluna depois de ter sambado a noite toda, já terei sabido o desfecho da caminhada que me propus a fazer do Rio até Araruama, uma cidade na região dos Lagos a cerca de 130 km daqui. Se terei conseguido chegar lá, não sei ainda. Deverão ter sido três dias a pé, seguindo a orla até Saquarema e depois entrando até o destino final. Minha primeira tentativa de realizar esse passeio foi em 1994, mas cometi erros vergonhosos de logística, tais como encarar um prato feito de carne assada e feijoada ao meio-dia e continuar caminhando com a careca exposta ao deus Helios, até quase fritar os miolos. Mas dessa vez terei levado um boné e protetor solar. Portanto, quem quiser o relato completo dessa indômita expedição, que mande email para , com subject escrito no dialeto do Cebolinha: "Alaluama".


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