O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 455 - Escrito em: 2000-05-17 - Publicado em: 2000-05-22


Monumentos de pedra


Vai sobrar alguma coisa palpável desse frenesi digital?

O jornalista Marcelo Tas <mtas@uol.com.br> distribuiu na semana passada via email um pronunciamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu, 69, professor do Collège de France e autor de "Sobre a Televisão", "Contrafogos" (Jorge Zahar Editor) e "A Dominação Masculina" (Bertrand Brasil), entre outros. Bourdieu estava diante de cerca de 70 grandes empresários do setor audiovisual que estiveram em Paris para a reunião anual do Conselho Internacional do Museu da Televisão e do Rádio, com sede em Nova York, uma espécie de clube informal das grandes empresas de mídia. Em sua brilhante palestra, o afamado estudioso defendeu a idéia francesa da exceção cultural e os valores da arte. Como se sabe, os franceses lutam pelo direito de manter sua produção cultural, especialmente no que diz respeito ao ramo audiovisual. Assim como, na ecologia, luta-se pela biodiversidade, os franceses pelejam pela diversidade cultural, temendo que a globalização se transforme numa emburrecedora e enfadonha uniformização.

Atualmente, as pessoas mais poderosas do mundo não são simplesmente aquelas que têm mais grana, mas sim as que dominam o poder que a riqueza exerce sobre os espíritos. É algo diferente do poder político ou econômico. Trata-se da capacidade de moldar mentes. Como se vê, a definição de poder mudou, mas as pessoas que o detêm continuam as mesmas.

Estão querendo que acreditemos a todo custo que a convergência tecnológica e econômica da produção audiovisual, das telecomunicações e da informática, junto com o emaranhado das redes digitais que envolvem o mundo, levarão a humanidade a um grau de satisfação geral jamais visto. Querem nos convencer que essa profusão tecnológica, divulgada através de múltiplos canais temáticos, irá atender integralmente à demanda potencial de todos os tipos de consumidores.

A lei do lucro está por trás de tudo isso. Cada vez mais vai se delineando uma mesmice cultural que achata os valores e atrofia a mente do povão. Às vezes a cuca de um camarada tem grande potencial de desenvolvimento e capacidade de mudar significativamente, para melhor, nosso querido planetinha. Mas se a mente desse sujeito for alimentada apenas com material raso, não vai ter jeito de o cara deslanchar.

Tire um tempinho para analisar as fontes de informação que permitem a você estabelecer um julgamento do que se passa no mundo e nas cabeças das pessoas. Os programas de televisão, por exemplo, cada vez mais se parecem uns com os outros. As inúmeras redes de comunicação têm a tendência cada vez maior de difundir o mesmo tipo de produtos, jogos, seriados, música comercial, romances sentimentais do tipo telenovelas e séries policiais. Pouco importa se são produzidos nos EUA, na França, Japão ou Alemanha, tudo se produz em busca de lucro máximo a um custo mínimo. Com os jornais e semanários se dá o mesmo. E, como não poderia deixar de ser, a internet vai no mesmo caminho.

A todo instante vemos um tubarão digital abocanhando outro, nessa pega-prá-capar dos gigantes corporativos que dominam os conteúdos e sua divulgação. A diversidade de canais que ainda existe vai tender para uma meia dúzia de (poderosíssimos) gatos pingados que concentrarão esse imenso poder. E sabem qual é o direcionamento que está sendo dado às centenas de bilhões de dólares que giram nesse mercado dos grandes portais e empresas de telecomunicações? É faturar mais, só isso. Neguinho está pouco se lixando para os efeitos permanente disso tudo a longo prazo.

Segundo o pronunciamento de Bourdieu, traduzido por Luiz Roberto Mendes Gonçalves, "só podemos compreender realmente o que significa a redução da cultura ao estado de produto comercial se nos lembrarmos como foram constituídos os universos da produção e das obras que consideramos universais no campo das artes plásticas, da literatura ou do cinema. Todas as obras expostas nos museus, todos os trabalhos de literatura que se tornaram clássicos, todos os filmes conservados nas cinematecas são produtos de universos sociais que se constituíram aos poucos, superando as leis do mundo comum e particularmente a lógica do lucro."

Num universo cultural em que essa lógica do lucro é onipotente, o que poderemos esperar que fique como legado palpável para nossos filhos e netos? Será que nas praças públicas do futuro serão erigidos monumentos de pedra em exaltação a este ou aquele Aipiôu? (IPO -- Initial Public Offering -- a oferta pública inicial de ações de uma empresa na bolsa de valores). Quem serão nossos heróis? Que figuras servirão de exemplo para a gurizada? Está tudo veloz demais, superficial demais. Temos um excesso de sites, de portais, de banners e links para clicar, de informações efêmeras, imediatistas e que pouco podem contribuir para melhorar efetivamente nossa qualidade de vida. Existem exceções, é claro. Há sites com substância, mas são raríssimos. O tempo se acelera, metralham dados inúteis nos nossos canais de entrada e não conseguimos digerir nem um pentelhésimo dessa torrente de informações que nos sufoca. Ou a gente se toca a tempo, ou não vamos conseguir deixar marcas culturais duradouras para as gerações futuras. Mas, tudo bem: só o fato de você estar lendo esse desabafo já pode começar a fazer diferença. Pense no assunto e vá batendo papo. Já é um adianto.


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