O GLOBO - Informática Etc. - Carlos Alberto Teixeira
Artigo: 474 - Escrito em: 2000-11-22 - Publicado em: 2000-11-27


Resgatando pedaços do passado


Como reencontrar velhos conhecidos fuxicando cabeçalhos de email

A possibilidade de metralhar email para muita gente duma só vez, informando múltiplos destinatários nas cláusulas "To:" e "Cc:" dos programas de correio eletrônico, dá origem a um interessante hábito social: a garimpagem nostálgica. Muito de nós já vivenciamos isso na carne, mas quem levantou a lebre, muito oportunamente, foi minha amiga Yami Trequesser <yami@tcinet.com.br>. Teria a leitora alguma vez recebido uma dessas mensagens coletivas em que aparece lá no "carbon copy" (Cc:) uma infindável lista de destinatários? Normalmente são correntes, avisos de vírus, piadinhas ou textos pretensamente inspiradores. Certamente você já foi brindada com um desses. Enquanto o pessoal não aprender que existe o "Bcc:" (blind carbon copy), que esconde os destinatários uns dos outros, teremos que conviver com essas longas listas de endereços explícitos. Acontece que uma remessa desse tipo pode muito bem se transformar numa excelente oportunidade de reencontrar amigos ou conhecidos de longa data, gente com quem eventualmente tenhamos perdido contato. Vasculhando essas extensas listas de usuários, é bastante comum encontrar algum nome familiar, arrancado de nossa infância ou do passado remoto. Será que é a Zuzuca lá do colégio? Quem sabe não é o filho do Dr. Astrogildo, que foi meu pediatra há séculos? Ou talvez seja parente do Teotônio, meu colega de escola lá de Teresina.

Não perca esta chance de retomar contatos. Eu mesmo já reencontrei muita gente das antigas e vivenciei experiências memoráveis, até mesmo autodescobertas. Quando a gente bate papo com alguém que não via há, digamos, vinte anos, descobre-se que a outra pessoa vinha guardando um tesouro nosso durante todo esse tempo: as lembranças e as impressões que ela preservava em sua memória a nosso respeito, detalhes sobre nós mesmos de que tínhamos nos esquecido. Da mesma forma, você guarda tesouros similares de pessoas queridas com quem perdeu contato. Num reencontro assim, a troca dessas preciosidades permite a ambos rever posturas de vida, retomar referências perdidas e geralmente fornece bons elementos para corrigir o rumo que nossas existências vão tomando.


Um dos mais freqüentados repositórios de arquivos do planeta, o Download.Com, atingiu no dia 15 deste mês a notável marca de 1 bilhão de downloads. A equipe do site ainda não conseguiu identificar o usuário que acionou o link "Download Now" nessa ocasião histórica. O programa que este misterioso internauta baixou foi o ICQ 2000b <http://download.cnet.com/downloads/0-10060-108-19877.html>, que incidentalmente é o atual arquivo campeão do site, com quase 1,2 milhões de downloads, mais do que o dobro do segundo colocado.


Quem não se lembra do terrível acidente nuclear de Chernobyl, na sexta-feira, 25 de abril de 1986? Grande parte dos pastos da Europa se viu contaminada por radiação. Na ocasião, proibiu-se no velho mundo a venda de leite por razões óbvias. Um ano depois, ao visitar a ilha de Itaparica, na Bahia, perambulando pelas ruelas de Mar Grande, notei que nos quintais e varandas de quase todas as casinhas estava-se usando latões de um mesmo produto como vaso de plantas. Perguntei a uma moradora e ela me contou que tinha havido uma oferta imperdível de leite importado nos supermercados da região. Tiveram a crueldade de vender para aquela gente simples e necessitada milhares de latas de leite em pó holandês. Essa foi uma ocorrência que eu mesmo presenciei pessoalmente. Imaginem quantas outras se verificaram pelo Brasil afora e ninguém se tocou.

E agora, nessas últimas semanas, em vários newsgroups da Usenet, o tema dos ativistas é a doença da vaca-louca, que já assustou a Inglaterra em 1996 e agora aterroriza França e Itália. Até na Espanha já apareceram casos da moléstia, muito embora lá ainda não se configure uma epidemia. O pânico se alastra e muitos estabelecimentos já cancelaram as compras de carne vermelha. Adivinhem onde vão parar esses estoques encalhados.


Enquanto passamos horas por dia pendurados na rede, nem podemos imaginar que tanta gente ainda hoje passe a vida inteira sem sequer sonhar em ter acesso à internet e, às vezes, ainda mais distante de tudo que tenha a ver com tecnologia. Lá mesmo no primeiro mundo, na França, há poucas semanas, uma senhora idosa emocionou-se às lágrimas quando acendeu as luzes pela primeira vez -- luzes elétricas. Numa casinha do interior, onde criou seus três filhos, esta velhinha havia vivido até então sem água quente e passado as noites à luz de velas. Com seus 78 anos de idade, a simpática Jeanne-Marie Kerlizien impressionou-se com quão bem podia enxergar à noite com a luz das lâmpadas. Há cerca de 40 anos, os trabalhadores que espalharam a rede elétrica perto do distante vilarejo de Plougonven <www.ifrance.com/FREY-Roger/plougonven.htm>, fundado no Século VI d.C. na Bretanha, haviam esquecido de ligar algumas casas à malha de distribuição. Agora que é uma cidadã eletrificada, dona Jean-Marie recebeu duma amiga uma geladeira de presente. Gratíssima pelo mimo, ela garante que não vai querer televisão em casa, pois adora ler o jornal. Internet então, nem pensar.


Mestre Cruz, o mago ilustrador, vai estar lançando a Revista "Papel Brasil", em conjunto com três colegas seus. Será amanhã, terça, na Casa de Cultura Laura Alvim, às 19h00m. Fica na Vieira Souto 176, Ipanema. Tel: 267-1647 e 523-2455.


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