O GLOBO - Informática Etc.
Carlos Alberto Teixeira - C@T

SUPREMA CRUELDADE?

Artigo: 482

Gatinhos encapsulados vivos em recipientes de vidro

Publicado em:  2001-01-22
Escrito em:  2001-01-15

 

No final do ano passado teve muito internauta furioso, pensando em até que ponto pode chegar a maldade humana. Certa empresa anunciou pela Web a venda de gatinhos de estimação muito especiais, criados através da técnica Bonsai Kitten (gatinhos Bonsai). Imagine um gato recém-nascido confinado num recipiente cúbico de vidro transparente com menos de 20 cm de lado. O vidro tem uma tampa de boca larga de modo a permitir introduzir o bichano e facilitar a manipulação de tubos. Ao crescer, os ossos do animalzinho se amoldariam às paredes do invólucro e assim passaria ele o resto da vida, vegetando dentro dum vidrão. Seus dejetos seriam retirados através de um tubo. Sua alimentação seria feita usando um outro tubo, pelo qual seriam introduzidas também no animalzinho drogas que amoleceriam seus ossos, atrofiariam seus músculos e afetariam seu sistema nervoso. Para conhecer em detalhe o terrível processo, incluindo fotos impressionantes, visite <www.animales.com.mx/hola.html> ou <http://es.onelist.com/message/adpca/923>.

O site original da empresa Bonsai Kitten Inc., com sede em Nova York e dirigida pelo Dr. Michael Wong Chang, entrou no ar no dia 10 de dezembro de 2000, no endereço <www.bonsaikitten.com>. As instruções sobre como tratar dos gatos anômalos eram detalhadas. Advertiam os clientes novatos para não enclausurarem os gatinhos no vidro sem antes providenciar furos de ventilação no recipiente, pois isto invariavelmente resultaria na morte deles por asfixia. Ensinavam como escolher diferentes formatos para os recipientes de vidro, moldando gatinhos em forma de prismas, cilindros, estrelas e outras mais. Segundo os que visitaram a página original, as instruções sobre gerenciamento dos excrementos entravam em minúcias as mais sórdidas possíveis, com uma naturalidade inacreditável, coisas que só poderiam mesmo ser fruto de mentes completamente doentias.

A comunidade da internet ficou revoltadíssima e iniciou um movimento mundial de protesto que teve na Itália e na Alemanha suas repercussões mais fortes. Como resultado, o site acabou sendo retirado do ar doze dias depois de ser criado. Mas, como bem sabemos nessas intermináveis correntes de protesto via email, é impossível interromper um movimento assim de uma hora para outra. Às vezes leva meses, anos, ou mesmo, em alguns casos, nunca se consegue matar uma corrente assim. E agora, uma vez que recebi a primeira mensagem em português exortando iradamente os destinatários a repassarem a cruel notícia, talvez seja uma boa idéia cortar logo o mal pela raiz.

Sobre todo o caso Bonsai Kitten, é imperativo dizer: foi tudo uma brincadeira. É um hoax, nada mais. Não existe a tal empresa, nem Dr. Chang, nem nunca ninguém criou nem vendeu gatinhos Bonsai. Alguns classificaram o hoax como de péssimo gosto, outros o acharam hilário, mas certamente inteligente ele foi. Alguns estudantes americanos bolaram essa história fantástica, montaram um site bem feitinho com fotos forjadas e um enredo mucho loco e puseram-se a divulgar a novidade através de postagens nos newsgroups da Usenet. Basta visitar <www.deja.com>, procurar por "Bonsai Kitten" e ver mais de 1.500 mensagens tratando sobre o tema. Atenção especial aos newsgroups "rec.pets.cats", "alt.animals.felines", "alt.animals.rights", "alt.fan.furry", "alt.lifestyle.furry" e "it.discussioni.animali.gatti". A quantidade de caras-de-pau que juravam que tinham Bonsai Kitten em casa era de chorar de rir e as reações dos leitores eram explosivas às vezes. Como resultado, circularam centenas de abaixo-assinados pela rede e, por incrível que pareça, só pouquíssimas pessoas sacaram logo de cara que a coisa dos Bonsai Kitten era apenas um embuste. Notava-se que as pessoas mais sensíveis à lorota eram as mulheres, sempre amorosas no geral e, no particular, cuidadosas com seus bichanos queridos.

O site era hospedado nos servidores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e foi tirado do ar logo que começaram a chegar os primeiros protestos. Segundo o administrador de redes do MIT, Jeffrey I. Schiller <jis@mit.edu>, o site foi preparado por várias pessoas. Pelo menos uma delas era estudante do próprio MIT e usava o computador de seu próprio dormitório como servidor da página. Atencioso, porém super cuidadoso com as palavras, Jeff fez questão de dizer que conversou com o mancebo do MIT e certificou-se de que nenhum mal foi feito a qualquer gatinho por ocasião da produção das tais imagens. Disse também que todas as fotos são trucadas e que em nenhuma delas o bichano estava realmente enfiado dentro do vidro. Observando as fotos, é difícil engolir essa, mas tudo bem. De acordo com o comunicado oficial do MIT, a página foi de fato desativada no dia 22 de dezembro, mas passou a ser reproduzida em diversos sites comerciais desde então, ou seja, fora da jurisdição do instituto.

A entidade protetora de animais PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) <www.peta.org>, fundada em 1980 e hoje com mais de 700 mil associados, foi uma das primeiras organizações a desmascarar a farsa, através da atuação rápida de sua representante Anna West. Segundo ela, os criadores do site queriam apenas chamar a atenção dos que apreciam animais de estimação e usar sua indignação para disparar uma corrente de mensagens exacerbadas e raivosas. Bem, isso os caras conseguiram.

Antes de repassar uma corrente, mesmo que seja humanitária e aparentemente benfazeja, verifique se é tudo mesmo verdade. Gaste alguns minutos investigando. Além de estar contribuindo para evitar congestionamentos na rede, não imagina o prazer que dá desmascarar um hoax com seus próprios esforços de navegação na Web ou, melhor ainda, usando simplesmente o bom senso.

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