Você certamente já deve ter ouvido falar no Orkut, esse site de contatos que se tornou tão popular. Já foi até letra de música e de vez em quando é mencionado também na grande mídia televisiva. Pois é dele que eu vou tratar aqui hoje, esse fenômeno que está virtualmente engolindo as redes sociais que existem no mundo real.
Mas, afinal, rede social, o que é isso? Eu tenho uma? Você tem a sua? Claro que nos temos. Qualquer pessoa tem a sua rede particular de contatos. Se for alguém muito popular esse círculo é imenso, contendo um montão de gente. Já um sujeito tímido, fechadão, tem um círculo de contatos bem reduzido. Num caso extremo, tipo eremita, o cara não tem nenhum amigo e vive sozinho na sua.
Mas vamos supor o caso duma pessoa normal. Seus contatos podem ser classificados como: nem conheço direito, conhecido, amigo e bom amigo. O "nem conheço direito" é aquele contato que a pessoa nunca encontrou pessoalmente, talvez nem por telefone, mas apenas por email ou através de um bate-papo online.
Seja qual for a categoria de um contato, o conjunto de pessoas que você conhece compõe a sua rede social. Com o advento da internet e com o barateamento dos computadores pessoais e da banda larga, esse babado de redes sociais começou a chamar a atenção dos criadores de sites. É claro, o que eles queriam, e continuam querendo, é faturar. E para induzir um internauta a gastar dinheiro em alguma coisa, é preciso anunciar na rede, seja um produto, seja um serviço. Então, eles se tocaram que, se as propagandas fossem direcionadas a grupos de gente parecida, com interesses comuns, então seriam anúncios com um retorno melhor, resultando em mais vendas.
E foi assim que começaram a aparecer os primeiros sites de contatos sociais. Historicamente, o pioneiro surgiu há 11 anos, em 95. Foi o classmates.com, um site americano que tinha como objetivo promover reencontros de alunos que tinham convivido nos tempos de colégio e cujas vidas acabaram se separando pelos caminhos da faculdade, da carreira e da família. O classmates.com existe até hoje, contando com milhões de assinantes pagantes. Tem ações na bolsa de valores americana e já se expandiu para países como Canadá, Alemanha e Suécia.
Dois anos depois, em 97, apareceu o sixdegrees.com, um site também americano que se baseava na teoria de que duas pessoas quaisquer estão relacionadas por no máximo seis graus de separação, ou seja, [CONTANDO NOS DEDOS = 6] você conhece alguém, que conhece alguém... Bom, nem sempre essa teoria dá certo, mas até que, em média, ela funciona razoavelmente bem. O sixdegrees durou 4 anos e acabou morrendo. É que o site ficava enviando uns emails indesejáveis pros associados, que acabaram sendo considerados como spam, que saco, né? Você sabe, spam são aquelas mensagens vendendo coisa que você não quer ou não usa, e que só fazem encher a sua paciência e estourar a sua caixa postal. O fato é que o sixdegrees ficou com fama de spammer e acabou indo pro buraco.
Alguns outros sites americanos parecidos surgiram nesse período, como o Epinions, por exemplo. Na Europa também apareceram outros semelhantes, como o Ciao, o Dooyoo e o ToLuna.
Até então eram sites de redes sociais em que qualquer um podia entrar. Bastava se cadastrar, indicar seus amigos e ir trazendo sua malha de contatos para dentro do sistema. Mas não dava muito certo, a coisa se descontrolava e acabava virando meio bagunça.
Até que em 2001, alguém resolveu dar um pulo do gato, usando a idéia do "círculo de amizades", um conceito muito utilizado nas comunidades virtuais. A diferença é muito simples: só entra quem for convidado.
Mas peraí! Se só entra convidado, então como é que começa essa brincadeira? É simples. Uma panelinha de amigos, que não pode ser lá muito pequena, monta o esquema todo e começa a soltar convites, mas só pra gente conhecida e supostamente confiável e séria. E daí, dependendo da qualidade do site e da facilidade de uso, a coisa decola legal ou não decola de jeito nenhum.
Hoje existem cerca de 200 sites de círculo de amizades. O primeiro site desse tipo foi o Friendster, em 2002, que funciona até hoje e tem 29 milhões de usuários. O campeão desses sites atualmente é o MySpace, que em 2005 chegou a ultrapassar o Google em número de visitas, e que hoje tem 102 milhões de usuários. Em julho desse mesmo ano, o site foi comprado por uma das gigantes da mídia americana, a News Corporation, pela bagatela de US$ 580 milhões. Atualmente o valor do MySpace é estimado em cerca de US$ 5 bilhões. É coisa, hein.
Já a turma do Google, que detesta não ser primeiro lugar em qualquer coisa na internet, resolveu criar o seu próprio site em 2004, o nosso famoso Orkut. Hoje ele tem cerca de 26 milhões de usuários. Eu disse "nosso" Orkut porque, apesar de originalmente ter sido um site com predomínio de usuários americanos, ele foi sendo literalmente invadido por nós brasileiros, que hoje representamos oficialmente quase 66% dos usuários cadastrados no site.
O motivo dessa invasão até hoje permanece inexplicado, nem o criador do site sabe porque isso aconteceu. E olha que o percentual de brasileiros certamente é maior do que esses 66%, com estimativas de que chegue aos 75%. Isso porque, quando começou a invasão, correu um boato dizendo que os americanos donos do Orkut estavam sabotando os brasileiros. Segundo esse rumor, se o usuário tivesse como país de origem o Brasil, o site automaticamente passaria a ter uma resposta mais lenta. Isso era o babado que rolava na época. E aí virou moda entre nós a coisa de trocar o país de origem. A turma em vez de Brasil informava Afeganistão, Tuvalu, Madagascar e por aí vai.
Bem, há indícios de que está havendo uma nova invasão brasileira, dessa vez no próprio MySpace, o campeãozão dos sites de contatos. Mas isso fica para um próximo programa. Nosso negócio hoje é Orkut, e com ele a gente fica.
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O Orkut foi lançado na moita, quietinho, em 22 de janeiro de 2004, pelo famoso Google, líder mundial em buscas na web. Ele foi o resultado de um projeto interno da empresa, uma iniciativa independente de um dos funcionários, um engenheiro de software, de origem turca, chamado Orkut Büyükkökten. Aliás, uma das obrigações de qualquer funcionário do Google é desenvolver um projeto particular seu durante parte do expediente. Ou seja, não foi nada inicialmente escondido, tudo foi feito às claras lá dentro da empresa e com apoio dela.
Antes de trabalhar no Google, esse engenheiro atuou numa outra companhia chamada Affinity Engines, ou Máquinas de Afinidade, onde ele desenvolveu um sistema parecido com o Orkut, só que mais rudimentar. O sistema se chamava InCircle e era direcionado a formar grupos e comunidades de alunos de universidades americanas.
Aliás, tem uma curiosidade. Essa empresa onde o criador do Orkut trabalhou antes, em junho de 2004, abriu um processo contra o Google, provando que o Orkut se baseava no sistema InCircle. E qual era a prova? Eram 9 bugs. Isso mesmo, nove erros no código interno do software que eram rigorosamente os mesmos num programa e no outro. E, como a gente sabe, é virtualmente impossível existir uma coincidência tão grande.
Inicialmente o Orkut era considerado um grupo fechadíssimo, quase de elite. Era a necessidade do convite que tornava o site tão elitizado. Mas ele se difundiu tanto, que em julho do mesmo ano, o Orkut conquistou seu primeiro milhão de usuários. E no final de setembro de 2004, dobrou, foi pra 2 milhões de usuários.
O sistema de convites do Orkut funciona através de email. Uma pessoa convida a outra por meio duma mensagem de correio eletrônico. Mas existem macetes pra ser convidado. Basta procurar direitinho no Google ou mesmo, se quiser comprar um convite, dá para apelar para o eBay, o famoso site de leilões via internet.
O Orkut é um mundo em si, uma ferramenta social um tanto complexa e cheia de vícios que, talvez, poderiam um dia levar o sistema inteiro a um colapso. Só que a turma do Google está monitorando com atenção a evolução das coisas e freqüentemente a gente percebe melhoramentos e mudanças na estrutura do site. Periodicamente são feitas pesquisas junto a alguns usuários selecionados buscando sugestões e reclamações. Com base nisso eles estão continuamente aprimorando o site.
Dentro do Orkut, é possível formar comunidades, gente que tem interesses em comum. Tem comunidade pra quase tudo que der na telha, a criatividade do pessoal é quase infinita. Tem comunidade pra quem ronca, pra quem tem motocicleta japonesa e até pra quem se molha lavando colher. Sabe quando você tá lavando louça e a água cai no côncavo da colher e molha a cozinha toda? Pois é, é isso. É claro, é uma bobeira, mas a gente tem que reconhecer: algumas pessoas acham divertido participar desses grupinhos sociais restritos. Um usuário pode pertencer a inúmeras comunidades, e é justamente passeando pelas comunidades de uma pessoa que a gente acaba conhecendo os gostos dela.
Um dos pontos sensíveis do esquema do Orkut é a possibilidade de adicionar à sua rede pessoas que você na verdade não conhece. E porque é que as pessoas fazem isso? Simplesmente para exibir prestígio. Mesmo que seja um prestígio fajuto e não verdadeiro. É que do lado do nome de cada usuário do Orkut aparece entre parênteses o número de contatos que ele tem. Quanto maior este número, mais prestigiada parece que a pessoa é. Bobagem. O sujeito às vezes sai adicionando qualquer Zé Mané que encontra no sistema e, se o outro topa, então é mais um "amigo" pra sua lista. E, nessa bossa de ir adicionando desconhecidos, existem até comunidades específicas com essa finalidade, ou seja, adicionar desconhecidos só pra aumentar o prestígio.
Em português, criaram até um anglicismo, o verbo "add" (a, d, d - em inglês), que significa "adicionar" e é conjugado como no próprio inglês, ou seja, sem mudança na terminação: "Eu vou te add", ou então coisas como "Olha, nós não vamos add esse mala-sem-alça não, de jeito nenhum".
O Orkut está sendo para o Google uma interessante experiência com redes sociais na internet, mas até agora não rendeu quase de grana nada com propaganda online, ao contrário do MySpace, que vende um banner na homepage por mais de US$ 100 mil, apenas para aparecer um dia. No Orkut, durante algumas semanas, andaram estampando um anunciozinho muito mirrado e sem graça na página de entrada do site. Mas ele sumiu do mesmo jeito que apareceu -- em silêncio. Mas a gente não pode interpretar isso como fracasso empresarial, certamente que não. Pode apostar aí que a equipe do Google tá tirando algum proveito do Orkut, mesmo que por enquanto seja intangível. Só que, pra eles, não deve ser ainda o momento apropriado para capitalizar em cima disso.
Pelo fato de não existir no sistema do Orkut nenhum mecanismo que force um usuário a se identificar de forma legítima, começaram a criar perfis fictícios no site. Toda hora aparecem identidades falsas, identidades clonadas, identidades invisíveis e perfis órfãos, de gente que criou um personagem falso só de brincadeira, e depois o abandonou.
A predominância de usuários do nosso país no sistema motivou a criação de várias comunidades de estrangeiros dentro do próprio Orkut expressando ódio aos brasileiros. Especialmente depois que o idioma alternativo principal do site passou a ser o português, sendo o inglês o idioma principal, mesmo que não seja o mais usado lá dentro.
Segundo a Wikipédia, que é a enciclopédia online viva que mais cresce na internet, cerca de 3% da população brasileira é composta de usuários Orkut registrados. É o percentual mais alto em todo mundo, referente à população de um único país pendurada nesse site.
Atualmente, o próprio criador do site reconhece: o Brasil é o foco principal do Orkut.
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Teve um tempo em que criaram um mecanismo de punição dentro do Orkut. Qualquer aparente abuso era punido com prisão, cadeia mesmo. É claro, uma prisão virtual. Isso significava que o usuário passava um tempo sem poder fazer nada dentro do site, funcionava como uma suspensão temporária.
Isso causou uma zanga geral. Até o próprio criador do Orkut chegou a ser preso uma vez, num lance de distração com as regras implícitas e nunca divulgadas. O fato é que houve tanta reclamação que eles removeram do site esse sistema de cadeia. E aí a coisa quase degringolou de vez. Ficou facílimo criar impunemente perfis falsos. Ainda existe um mecanismo interno de denúncia de casos assim, mas a maioria dos usuários não perde tempo com isso, simplesmente deixa rolar.
Quando começou essa bagunça, alguns usuários clones ou falsos passaram a enviar mensagens a esmo dirigidas a comunidades ou enviadas diretamente a outros usuários, individualmente. No início eles faziam isso na munheca mesmo, enviando uma por uma. Algumas eram spam, mas outras, lastimavelmente, eram phishing mesmo.
Phishing, como a gente sabe, é uma técnica fraudulenta de induzir um usuário a carregar no computador dele algum programa que pode causar dano ao sistema ou às informações pessoais guardadas nesse sistema.
E como é que isso acontece no Orkut? Em geral, é através dos recados, conhecidos também como scraps (que se escreve s-c-r-a-p-s, scrápes). De repente, aparece nos seus recados do Orkut uma mensagem de uma amiga sua dizendo alguma coisa do tipo: "Você nem imagina como ficaram ótimas as fotos da minha festa ontem na praia. Clique aqui para vê-las." Aí você olha o link e ele parece totalmente inofensivo. Mas quando você clica, sem saber está caindo numa armadilha. E se o seu antivírus ou a sua firewall não estiverem bem atualizadinhas e funcionando 100%, você dança.
Depois dos ataques manuais, alguns hackers do Orkut descobriram que era possível escrever programas em Javascript, por exemplo, capazes de automatizar os envios dessas mensagens-armadilhas. Virou então uma verdadeira metralhadora de phishing. Isso deu origem a uma guerra de scraps, geralmente travada entre comunidades antagônicas: flamenguistas versus vascaínos, neonazistas versus sionistas, católicos versus muçulmanos, usuários Windows versus usuários Linux, e assim por diante.
Em agosto de 2005, um brasileiro anônimo desenvolveu um dos mais famosos desses programinhas de inundação de recados, o FloodTudo. Era um softwarezinho gratuito e fácil de encontrar para fazer download e experimentar. O resultado é que nos dois meses seguintes o Orkut quase entrou em colapso, fazendo com que os desenvolvedores do site fizessem mudanças na própria estrutura do sistema para neutralizar o tal programa.
Mas os hackers não param, a gente sabe. Eles sempre encontram um jeitinho de achar um novo furo no sistema e explorá-lo de maneira super-inteligente. Pena que não usem essa inteligência pra outras coisas mais úteis. Mas a equipe de desenvolvimento do Orkut também não pára. É a eterna briga do mocinho contra o bandido.
Contra as inundações de recados, conhecidas como floods, o sistema já identifica qualquer envio automatizado de scraps repetidos para várias comunidades e usuários. O que ele faz em casos assim é forçar um tempo de espera entre dois envios consecutivos. Ou então solicitar que o usuário digite os caracteres de uma figura que aparece com letras e números distorcidos e difíceis de ler. Difíceis para um robô automático, um programa. Mas aceitáveis para um ser humano. Desse jeito, o Orkut sabe que quem está enviando o recado é uma pessoa e não um programa de repetição de scraps.
Todos esses perfis falsos, inundação de recados e mensagens de armadilha, além de chatearem os usuários que só querem se divertir, acabam prejudicando o site como um todo. É que, com isso, os servidores, os computadores e a malha de fibra óptica que sustenta o sistema acabam ficando sobrecarregados e isso estraga a brincadeira de todo mundo, diminuindo ainda mais a confiabilidade do site, que de vez em quando exibe uma mensagem de desculpas, dizendo que o sistema infelizmente travou.
Como em qualquer coletividade, seja ela no mundo real, seja no ciberespaço, afloram os dois lados da natureza humana: o anjo e o demônio.
O lado do anjo é o que a gente mais curte. É a camaradagem, o bom humor, a poesia, a nostalgia, as amizades verdadeiras e até o romance e a paixão. Muitos amores começaram pelo Orkut. Às vezes os casais se conhecem numa das comunidades do site, mesmo que totalmente desvinculada de namoros e relacionamentos. Mas o tempo e o interesse em comum às vezes desperta outros sentimentos. E aí a Natureza se encarrega do resto.
Tem também os reencontros com gente das antigas. Isso é realmente emocionante. Tá cheio de histórias de pessoas que acham no Orkut coleguinhas de colégio, dos tempos de criança. Geralmente é uma grata surpresa prás duas pessoas envolvidas, mesmo porque se a gente encontrar no site algum colega de um passado remoto e essa pessoa já era asquerosa naquela época, então ninguém é maluco de querer retomar contato com ela. As pessoas só costumam se aproximar de gente que lhe foi simpática no passado. Eu já fui a muita festa e muito churrasco de reencontro de turma de escola, de faculdade, de academia, de clube e a galera da praia. Ah tempo bom, de vagabundagem e vida mansa, que saudade.
Mas existe também o lado negro da Força, o aspecto negativo do site. São os grupos de ódio. Pelos estatutos do Orkut, são deletadas comunidades racistas, nazistas, ou que preguem violência, pedofilia, tráfico de drogas, assédio de qualquer espécie e atividades criminosas ou de preconceito. Mas esse processo não é automático, e nem teria como ser. É preciso que outros usuários identifiquem os suspeitos, façam a denúncia, e aí a equipe do site toma as devidas providências. Bem, nem sempre toma.
Aqui no Brasil, desde 2005, já houve diversos casos de processos judiciais envolvendo comunidades e usuários individuais do Orkut. Em junho de 2006, o Ministério Público Federal em São Paulo entrou com pedido de abertura de inquéritos criminais na Justiça Federal contra os representantes do Google Brasil. É que a empresa inicialmente se negou a quebrar o sigilo de membros de comunidades criminosas no Orkut. As formas de pressão contra a empresa iam desde a aplicação de multas diárias, até a própria desconstituição da pessoa jurídica Google Brasil.
Naquela época, dos 12 pedidos de abertura de sigilo feitos pela justiça brasileira, o Google colaborou com informações em apenas um, ligado à comunidade Skinheads Brasil, um grupo neonazista. Em alguns dos outros pedidos, a empresa simplesmente se negou a fornecer as informações pedidas.
Desde março de 2006, o Ministério Público já tinha entrado com 17 pedidos de quebra de sigilo ligados a 22 comunidades que promoviam o racismo no Orkut, entre elas: Matem todos eles, NS Communities, Odeio nordestinos, Odeio Preto, Orgulho Branco e White Power. Ainda houve outros pedidos referentes a comunidades que incitam a queimar índios, exibem pornografia infantil, incitam a crimes contra os direitos humanos, homofobia, intolerância religiosa, xenofobia, tortura, terrorismo e maus tratos contra animais. Na época, estavam envolvidos em tudo isso mais de 5 mil usuários brasileiros do Orkut.
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O Orkut é uma verdadeira esponja de tempo. Se o usuário pegar o gostinho, aprender a transitar lá dentro com desenvoltura, e tiver algumas centenas de amigos, então é bem possível que ele se torne um orkut-viciado, o que já é bastante comum e tem até gente se tratando.
O que se diz por aí é que, quem não está no Orkut, ou não conhece ou então tá marcando gol. Em resumo, se a pessoa está feliz com seus amigos, tem uma vida social legal, tem trabalho e coisa pra fazer, e vive uma relação amorosa e familiar estável e sólida, então, a princípio, não vai perder seu tempo num site de comunidades virtuais.
É claro, existem exceções. Mas o fato é que pessoas com dificuldades ou carências em alguns desses aspectos da vida, encontram um ótimo passatempo no Orkut. E muitas vezes o site proporciona a esses usuários oportunidades de um reencontro consigo mesmos, chances profissionais e até aproximações sentimentais, o que não é nada mau.
Quando o pessoal já está no Orkut e não tem mais nada pra fazer lá dentro, um dos passatempos mais usuais dos adeptos do site é sair fuçando os perfis alheios. Pode ser gente desconhecida, ou mesmo amigos dos amigos, vale tudo. Mas tem aquele gostinho de espiar pelo buraco da fechadura. Ver as fotos da pessoa, fuxicar as comunidades da criatura e os amigos dela. E aí vai, isso não acaba mais.
Aproveitando esse instinto, os desenvolvedores do Orkut recentemente ofereceram a possibilidade de você saber as últimas cinco pessoas que fuçaram o seu perfil. Elas deixam um rastro que você pode seguir e esse revide acaba virando uma bola de neve. Sabiamente, porém, eles também oferecem a opção de desligar esse mecanismo, permitindo uma fuçação incógnita e discreta, sem deixar pistas. É claro, lá dentro do sistema eles sabem de tudo, mas pra nós usuários, não aparecem evidências. No entanto, segundo a maioria dos usuários, a graça da ferramenta está justamente em mantê-la ligada, escancarando as fuxicações.
É lamentável, mas também existem situações escabrosas e desagradáveis no Orkut, mesmo no âmbito sentimental. Um exemplo clássico é o da traição virtual, que acontece com triste freqüência. A pessoa é casada ou comprometida, mas conhece alguém pelo Orkut, surge um envolvimento indevido e lá se vai o relacionamento por água abaixo.
No mundo empresarial também surgem situações problemáticas ligadas ao Orkut. Certa vez eu entrei numa pequena empresa aqui no Centro da cidade e os donos não estavam, só os funcionários, na maioria gente jovem. Eu era amigo do dono, mas ninguém sabia. Fui lá entregar um pacote e me deixaram esperando num salão grande com uns 30 postos de trabalho, um computador pra cada empregado. Duas máquinas estavam vazias. Uma porque o computador estava quebrado e outra porque o funcionário tinha faltado. Nas outras 28 telas, era Orkut direto, sem exceção. A turma zarolha, hipnotizada, mandando scraps, olhando fotos, escrevendo mensagem e convidando gente. Um festa. Agora, imagina o preju que isso causava à empresa em termos de perda de produtividade.
É claro, os empresários não são bobos. Afinal, o que eles visam é o lucro. Logo, muitas empresas atualmente proíbem Orkut e mensageiros instantâneos online durante o expediente. Em geral essa proibição está claramente definida nos códigos de conduta das empresas, mas também é implementada nos próprios servidores pela equipe de tecnologia da informação. Basta o cacique mandar fechar certas portas da internet corporativa e o pessoal da tribo fica chupando dedo.
Mas também não é bem assim não. Tem sempre um funcionário mais safo, que tem um amigo, de um amigo que conhece um hacker que arranjou um jeito de burlar essa restrição lá na empresa dele. E aí, é a velha história de sempre, mocinho e bandido. Começa a circular à boca pequena aquele site secreto e miraculoso que permite furar o bloqueio e chamar o Orkut sem que o administrador do sistema tome conhecimento. E se um dia ele descobre o furo e conserta a brecha, não demora muito para alguém encontrar outro jeito de furar. Isso não acaba nunca.
Não é à toa que algumas empresas mais tradicionais, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, quem diria!, simplesmente proibiram totalmente o uso de internet pelos funcionários. E olha, a produtividade dessas empresas vai muito bem, obrigado.
Outro fenômeno que tem se tornado bastante comum é o de pessoas que anunciam a todos contatos que estão abandonando o Orkut. Isso costuma acontecer num momento de revolta, mudança de vida ou desconforto. O papo geralmente é do tipo: "Vou matar o meu Orkut, cansei da falta de privacidade. Quem me conhece mesmo e quiser me encontrar pode me mandar email, me telefonar ou aparecer lá em casa. Passar bem." E pronto, o elemento vai lá e detona o próprio perfil. Volta então ao mundo real. Acontece muito. Mas é claro, ocorrem também as recaídas. Detonou o Orkut num rompante. Mas depois, a pessoa às vezes se lembra da camaradagem, da emoção e das horas intermináveis passadas no site. E acaba voltando, pedindo a algum amigo um convite, só pra começar tudo de novo, re-colecionando velhos e novos amigos, e deixando escoar pelo ralo o seu bem mais precioso: o tempo.
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