O GLOBO - Informática Etc.
Carlos Alberto Teixeira
C@T

Nigéria 419

Artigo: 562

 Atenção para não cair na trapaça mais manjada da rede

Publicado em:  2003-03-03
Escrito em:  2003-02-27

 

Saúdo a leitora neste simpático dia pseudopalindrômico de 03/03/03, lembrando que amanhã estaremos comemorando os 12 anos do caderno Informática Etc. e trazendo à sua atenção um caso que nos lembra a estupenda quantidade de otários vivendo neste planeta azul. Há exatos três anos foi publicada aqui nesta coluna uma advertência sobre uma das armadilhas mais velhas para arrancar dinheiro de gente simplória, o golpe da Nigéria. Resumindo bem a coisa, alguém, normalmente com um nome bem esquisito, envia por email uma carta em inglês dizendo que possui uma soma astronômica num banco nigeriano, geralmente dezenas de milhões de dólares supostamente salvos de uma ala corrupta do Governo da Nigéria. Às vezes é a esposa do presidente da Nigéria, outras é um alto funcionário do Banco Central nigeriano. Seja quem for, o autor da missiva informa que precisa urgentemente transferir a tal fortuna para um outro banco, como forma de preservar os recursos do país e impedir que seus conterrâneos facínoras se apossem dele. Alega que obteve o email do destinatário numa relação de pessoas de sucesso. Pede então que a vítima do golpe se ofereça para receber a montanha de grana em sua conta bancária, mediante pagamento de um percentual. Imagine ficar com 10% de US$ 50 milhões... nada mau. Sucede-se então uma troca de emails, geralmente longa, para tratar dos detalhes. Naturalmente, os olhos do trouxa vão brilhando cada vez mais, ante a possibilidade de enriquecimento rápido. E quando está quase tudo acertado, o nigeriano safado se lembra de um pequeno detalhe. É preciso que a vítima envie uma quantia irrisória, algo da ordem de US$ 200, para um último procedimento bancário de rotina, algo tipo tarifa de urgência ou taxa de transferência. Comparando os valores, o usuário bobalhão não hesita em enviar a merreca para o safado e, depois disso, o sujeito desaparece, deixando mais um idiota a ver navios. Isso quando o tolinho não entrega todas as suas informações sigilosas bancárias e vê sua conta zerada.

Esta fraude surgiu na década de 1980 e sem dúvida já rendeu (e continua rendendo) muita grana aos embusteiros, conseqüentemente trazendo graves problemas para as vítimas. Com o advento da internet, as cartas-isca passaram a ser enviadas via email. Há milhares de variações na historinha que os trapaceiros contam, mas no fundo é sempre o mesmo embuste. Sobejam exemplos para quem se dispuser a apontar seu Google para "nigeria scam" ou "nigeria 419" (Nigéria sem acento agudo), por exemplo. Em tempo, 419 é número do artigo no código penal nigeriano que trata de crimes desta natureza. As cartas são enviadas também de outros países africanos, como Gana, Togo, Libéria, Serra Leoa e Costa do Marfim.

Um dos sites mais importantes no combate a esta fraude é o NigerianFraudWatch.org, um serviço operado pelo governo nigeriano em parceria com a Grã-Bretanha. Pelo menos, nem sempre os fraudadores conseguem sair impunes e com os bolsos cheios. A última grande operação que teve sucesso na captura desses criminosos se deu em agosto de 2002, quando 15 pessoas foram presas em associação a uma variante do esquema que operava na África do Sul.

Quem quiser ver um bom exemplo de como funciona a trapaça, veja o trabalho de Will Sturgeon, do Silicon.com, que publicou na web a íntegra de sua troca de emails com um tal Mr. Madu Frank, um típico fraudador 419. Outra boa fonte de informações, como sempre, é o Snopes.com, que reservou uma página especial à tramóia nigeriana. Mas o melhor repositório de informações sobre a questão é o site "Nigeria - The 419 Coalition Website".

Decidi trazer este assunto novamente à baila em virtude do lamentável acontecimento que se deu há duas semanas. Um cidadão tcheco de 72 anos, pensionista em seu país, caiu no golpe Nigéria 419, entregando ao golpista todas suas informações bancárias e diversos formulários de identificação. Foi tão envolvido na farsa que acabou revelando dados demais, e passou a ter sua conta continuamente raspada pelo farsante. Quando se deu por conta, estava arruinado e ficou desesperado. Perdeu as estribeiras e foi até o consulado nigeriano em Praga exigir reparação sobre suas polpudas perdas. Em lá chegando, já com os nervos à flor da pele, acabou se emputecendo com um diplomata e meteu-lhe chumbo. O pobre do cônsul, Michael Lekara Wayid, inocente que era, acabou morrendo com um tiro. E o descontrolado babaquara, se condenado, vai passar os próximos 15 anos na prisão.

 


[ Retorno dos leitores ]

----- Original Message ----- 
From: "G" <sub-zero@XXX.com.br>
To: cat@oglobo.com.br 
Sent: Monday, March 03, 2003 4:58 PM
Subject: Sobre sua coluna Nigéria 419 - Golpe da Nigéria

Olá CAT, sou mais um leitor do Informática etc. que vem lhe contar um caso engraçado (para alguns nem tanto) que aconteceu recentemente, que atinge grande parte dos internautas descuidados (ou talvez gananciosos, *risos*). Bom, tudo começou com minha esposa, recebendo um email que considerei incomum, sendo que ela só recebe email de amigos e raramente os infames spams :-) 

Fui eu abrir o email para constatar (escrito em inglês) que um parente distante da família dela havia morrido, juntamente com a mulher e 3 filhos, e, deixou uma pequena fortuna no banco...pois bem, o sujeito do email se apresentou como advogado deles, e havia dito que não poderia retirar o dinheiro pois precisavam de um herdeiro legítimo (como diabos ele foi achar herdeiros lá de Togo, aqui no Brasil, que nem imagino...) ai, iniciamos como dito em sua coluna uma troca de emails, para comprovar que minha esposa realmente seria herdeira legítima, sendo que eu tomei frente desse assunto pois ninguém da família dela fala inglês. Eu como achei tudo muito estranho, já micreiro que sou...comecei a alimentar o assunto com tal sujeito, e fui vendo uma série de erros gritantes de leis e direitos de herança (bom o advogado é ele, e eu que noto coisas erradas ?)...isso se sucedeu por alguns dias, até que duas outras pessoas, com assuntos diferentes (uma mãe que fugiu refugiada pois haviam assassinado seu marido de nome mirabolante que era influente em alguma região da Nigéria, entre outras coisas absurdas) apareceram no mesmo email, pedindo informações como endereço, contas de banco, e todas as coisas necessárias para retirada de pequenas fortunas...15 milhões de dólares...Ah, até chegaram a me enviar documentos escaneados (falsos claro) de óbito de algum "pobre" cidadão nigeriano, um outro documento que seria o testamento dessa pessoa beneficiando o nome da minha esposa (sem comentários), e um outro documento de um banco, que seria o formulário para que fosse preenchido e enviado para o banco lá do outro lado do planeta....não consigo me conter rindo aqui. Já sabendo que era tudo uma mentira grotesca, alguma forma de estelionato, deixei tudo de lado, e parei de responder os emails, pensando já em providências legais para investigar isso, até ter lido sua coluna.

Tenho todos emails aqui, alguns com os telefones que os embusteiros me deram para entrar em contato com eles, verifiquei códigos internacionais, realmente de algum lugar em Togo, Benin, e cheguei a ligar e pedir para falar com o sujeito qual nome apareceu no email, e para minha surpresa, ele me atendeu, até tivemos uma curta conversa. Tenho alguns endereços de instituições, e outras informações nos emails recebidos, que acho que podem ser vitais para que prendam essa quadrilha internacional....pensei até em entrar em contato com o consulado Brasileiro ou Africano São Paulo...qual seria o procedimento correto para que eu possa ajudar a desbaratar essa quadrilha ? Adoraria ajudar, para que ninguém menos desavisado, ou de boa fé, caia nesse conto do vigário. 

Abraços, e desculpe pelo enorme email,
G.


----- Original Message ----- 
From: pinta@XXX.com.br 
To: cat@oglobo.com.br 
Sent: Tuesday, March 04, 2003 8:30 PM
Subject: EMPUTECENDO

Sr. Jornalista,

Imagino que O GLOBO lhe paga para atuar como jornalista do caderno de INFORMÁTICA para, com educação, correção e competência, escrever sobre o assunto, com a responsabilidade de transmitir informação de forma adequada. Imagino, também, que O GLOBO o dispense de fazer uso de regionalismos, gírias, cacoetes e palavras chulas para cumprir com sua responsabilidade. Creio, então, que EMPUTECENDO seja apenas falta de vocabulário mais profissional. Assim como O GLOBO, eu como leitor, que lhe proporciona seu salário, também passo a dispensar a leitura de sua coluna tão informativa e formativa.

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