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O GLOBO - Informática Etc.
Carlos Alberto Teixeira

Globo Online, onde você fica sabendo das coisas.

Artigo: 609 / Publicação: 2004-12-20

EPIC

Está dando o que falar um vídeo pretensamente profético produzido por Robin Sloan. É uma peça em Flash com 11,4 MB, em inglês, mas que vale a pena baixar. Para a leitora que não fala inglês, preparei uma tradução livre e super-linkada da transcrição do vídeo.

Ele se passa no futuro, no ano 2014, quando as pessoas têm acesso a uma variedade e profundidade de informações que seriam inimagináveis em épocas passadas. Todos contribuem de alguma maneira para encher esse gigantesco caldeirão de informações, criando um mundo de mídia vivo e pulsante. No entanto, a Imprensa, como antigamente era conhecida, deixou de existir. As fortunas do Quarto Poder se foram. As empresas de notícias que existiam no Século XX mudaram muito, tornando-se uma débil reminiscência de um passado não tão distante.

O vídeo relembra todos os passos que levaram a esta situação, uma jornada que começou em 1989 com a invenção da Web e prosseguiu com a fundação da Amazon.com em 1994, uma loja online que oferecia sugestões. Em 1998 veio o Google, a mais poderosa máquina de busca do mundo. No ano seguinte surgiu o TiVo, livrando a TV dos comerciais. No mesmo ano foi lançado o Blogger, a famosa ferramenta pessoal de publicação. Depois foi o Friendster, em 2002, povoado com mapas incrivelmente detalhados das vidas de centenas de milhares de jovens, seus interesses e suas redes sociais. No mesmo ano apareceu o Google News, um portal de notícias editado inteiramente por computadores.

Em 2003, Google comprou o Blogger, pois afinal era o ano dos blogs. Quanto ao nosso corrente ano, este que está quase terminando, seria lembrado no futuro como o ano em que tudo começou.

Em 2004, a revista Reason traz na capa uma foto-satélite da casa de cada assinante e em suas páginas informações também personalizadamente direcionadas. Sony e Phillips lançam o primeiro jornal eletrônico do mundo produzido em larga escala. Google lança o Gmail, com um Gigabyte de espaço gratuito para cada usuário. Microsoft lança o Newsbot, um filtro de notícias sociais. Amazon lança o A9, uma máquina de busca baseada em tecnologia Google que também incorpora as recomendações da Amazon, sua marca registrada. E então, Google põe suas ações na bolsa. A partir deste ponto no vídeo, começam as profecias.

Com novo capital de sobra, a companhia faz uma grande aquisição. Google compra a TiVo. Em resposta aos recentes lances da Google, a Microsoft compra a Friendster em 2005. No ano seguinte, a Google combina TiVo, Blogger, Google News e todas as suas buscas em algo chamado Google Grid, uma plataforma universal com espaço e largura de banda ilimitados, sempre online e acessível de qualquer lugar. Cada usuário pode armazenar seu conteúdo ou publicá-lo à vontade. Em 2007, a Microsoft rebate lançando o Newsbotster, uma rede de notícias sociais e uma plataforma de jornalismo participativo que gradua e ordena notícias, baseado no que estão lendo e vendo os amigos de cada usuário, permitindo que todos comentem. No mesmo ano, o ePaper da Sony fica mais barato do que o papel real, tornando-se o meio escolhido para publicação do Newsbotster.

Em 2008 Google e Amazon formam a empresa Googlezon -- Google entra com o Google Grid e Amazon com sua gigantesca infra-estrutura comercial e seu sistema de recomendações automáticas. Objetivo: personalização total de conteúdos e anúncios. É um xeque-mate na Microsoft, pois a gigante do software não consegue igualar as facilidades oferecidas pela Googlezone que, usando um novo algoritmo, faz com que seus computadores construam novas matérias dinamicamente, pinçando sentenças e fatos de todas as fontes de conteúdo e recombinando-as. Os computadores escrevem um novo texto para cada usuário.

Em 2011, o jornal The New York Times abre processo contra a Google, alegando que os robôs capturadores de notícias da companhia são uma violação à lei de direitos autorais. O caso vai até a Suprema Corte americana, com ganho de causa para a Googlezon. Em 2014, Googlezon lança o EPIC, "Evolving Personalized Information Construct", um sistema que ordena e transmite conteúdo pela Internet. Está tudo no mesmo bolo: blogs, imagens de câmeras de celular, reportagens em vídeo e investigações completas. Quem contribui ganha grana, uma pequena fatia do imenso faturamento da Googlezon, proporcional à popularidade de cada contribuição.

EPIC produz um pacote de conteúdo personalizado para cada usuário baseado em suas escolhas, hábitos de consumo, interesses, dados demográficos e sua rede social. Surge uma nova geração de editores-freelance, pessoas que vendem sua habilidade de se conectar, filtrar e priorizar o conteúdo do EPIC. O lado bom da coisa, para leitores mais safos em surfar na web, é que EPIC virou um resumo do mundo, mais profundo, mais amplo e com mais nuances do que qualquer coisa antes disponível.

Todavia, o lado ruim é que, para a grande maioria dos mortais, EPIC é meramente uma coleção de curiosidades, em sua maioria inverídica, um conjunto de informações estreito, superficial e sensacionalista. Mas EPIC é o que queríamos, é o que escolhemos. E seu sucesso comercial abafou qualquer discussão sobre mídia e democracia, ou sobre ética jornalística. Hoje, em 2014, The New York Times deixou de estar online, num débil protesto contra a hegemonia da Googlezon. Ele se tornou um jornal exclusivamente impresso e de pequena tiragem, destinado apenas à elite e aos mais velhos. Mas talvez houvesse um outro jeito...


Desejo a todos vocês e suas famílias um Natal bem feliz e um 2005 pleno de saúde, dinheiro, boa sorte, harmonia e amor.


Os links de hoje estão em catalisando.com/infoetc/20041220.htm.

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